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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Você viu? #120

Já é de praxe aqui no PoA Geral todas as terças-feiras essa curadoria de conteúdo, reunindo algo do mais interessante que foi pra rede nos últimos dias. Com a edição 120, começamos o ano. Aproveitem que tem muita coisa boa pra consumir nos links indicados.

POA: Fortunati poderá vetar projeto que cria feriado para Dia da Consciência Negra em Porto Alegre
Sul 21, 6 de janeiro

Futebol: Neymar a Messi após gol sofrido pelo Barça: 'Aquece'
ESPN, 6 de janeiro



Kátia Abreu: Ministra diz que “não existe mais latifúndio”. Adoraria viver no país dela
Blog do Sakamoto, 5 de janeiro

Ministra:  O Brasil tem latifúndios: 70 mil deles
Carta Capital, 6 de janeiro

Política: Análise preditiva para o cenário político nacional em 2015
Estratégia & Análise, 5 de janeiro

Segurança: O estranho caso das promoções e demissões do coronel que fazia propaganda nazista
DCM, 5 de janeiro

Coronel Fabio de Souza em entrevista para Luciano Huck
















Mídia: Como a Veja foi atacada por seus próprios leitores numa matéria sobre o nazismo na PM
DCM, 5 de janeiro

Cristo: 10 versões hereges para Jesus: liberdade de pensamento e a neo-inquisição virtual
Socialista Morena, 5 de janeiro

Chile: Após série de ofensas racistas, jogador de futebol venezuelano pede para sair de time
Opera Mundi, 1° de janeiro

Sant'Ana:  Zero Hora, dezembro de 2014: A promoção do racismo
Jornalismo B, 30 de dezembro/14

Insegurança: O Natal das mães que perderam seus filhos para o Estado
Ponte, 28 de dezembro

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Você Viu? #116

Saúde: Quatro pessoas que vivem com Aids contam suas histórias
Sul 21, 2 de dezembro

Sonegação: A história da funcionária da Receita que sumiu com o processo de sonegação da Globo
Diário do Centro do Mundo, 1° de dezembro

HQ: Uma história real sobre o tráfico de trabalhadores estrangeiros para a indústria high-tech dos Estados Unidos
Agência Pública, 1° de dezembro

Violência: Mãe acredita que filho de 13 anos foi morto pela PM por vingança
Ponte, 1° de dezembro

Política: Armando Monteiro é nomeado novo ministro do Desenvolvimento
Carta Capital, 1° de dezembro

Saúde: Brasil e Aids: o que mudou após três décadas do primeiro diagnóstico?
Brasil de Fato, 1° de dezembro

Renner: Fiscalização flagra trabalho análogo ao escravo na produção para a Renner
Blog do Sakamoto, 28 de novembro

Chespirito: SBT bate Globo e Record durante oito horas com maratona de Chaves
Notícias da TV, 29 de novembro












Chespirito: São Paulo recebe exposição em homenagem a Roberto Bolaños, o eterno Chaves
Hypness

Denúncia: Famílias com até dois mínimos arcam com 48,9% dos impostos
Vi o Mundo, 28 de novembro

Mídia: O que o termo “petrolão” diz sobre a imprensa
Carta Capital, 25 de novembro


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Filme de Segunda 106

Depois de Lúcia


Não sei dizer qual o melhor momento, ou melhor horário ou melhor dia para assistir Depois de Lúcia. É preciso ter ciência do que se trata antes de escolher este filme como lazer. Talvez seja melhor ignorá-lo no cinema e deixar para conferir em casa. O filme do mexicano Michel Franco é seco, pesado, daqueles que estragam o dia. Não é bom sair do cinema com esta sensação.

Por outro lado, causar uma sensação ruim não significa se tratar de um filme ruim. Michel Franco segue a linha dos grandes cineastas mexicanos da última década, que tem como nome de maior destaque Alejandro González Iñárritu. Dessa forma, é compreensível que Franco nos apresenta um verdadeiro soco no estômago. Assim sendo, o diretor perde a oportunidade de aliviar a mão, um pouco que seja, e transformar o que é bom em excelente.

Não conhecemos Lúcia. Porém sabemos que é a mãe de Alejandra, 15 anos, e esposa de Roberto. Conhecemos os dois a partir da morte de Lúcia. Em luto e procurando novos ares, pai e filha saem de uma pequena cidade praiana se mudam para Cidade do México. No nova moradia, novo emprego, nova escola e novas relações e novos problemas. O principal deles, o byllying.

Depois de Lúcia quase não tem trilha, ouvimos silêncio, diálogos e som ambiente. A câmera não se move, cada cena é um quadro fixo, contando apenas com o movimento dos atores. Assim acontece o interessante plano sequência que abre o filme. São por volta de cinco minutos com a câmera posicionada no banco de trás do carro, que está estacionado em uma mecânica e acaba a cena abandonado no meio do trânsito.

A partir de certo momento do filme, no auge dos abusos contra Alejandra, a menina aparece em cenas de violência perturbadoras. Não só violência física, mas também de ordem moral e psicológica. O desfecho da trama não alivia o espectador, segue o tom nada poético do longa. Michel Franco não vê soluções, apresenta uma sociedade doente e termina seu trabalho de forma a sugerir um agravamento da situação.

Gênero: Drama
Duração: 103 min.
Origem: México, França
Direção: Michel Franco 
Roteiro: Michel Franco
Distribuidora: Imovision
Censura: 14 anos
Ano: 2012


Classificação PoA Geral 
- Obra
- Baita Filme
- Bom Filme
- Bem Bacana
- Meia-boca
- Ruim
- Péssimo

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Aqui, despreparo. Em Campinas, racismo


Tenho convicção que um policial bem preparado, seria capaz de abordar o sujeito do vídeo acima, dando voz de prisão e o algemando, sem precisar disparar contra o homem. Ninguém comete uma chacina empunhando uma faca. Imagino que um profissional capacitado conseguiria desarmá-lo (arma branca) sem a necessidade de apontar um revolver o tempo inteiro.

A filmagem publicada no site do jornal Zero Hora, ontem, é de Lucas Silvestre Vargas. Segundo a testemunha, o homem parecia drogado e, sentado no chão do trem, ameaçava os passageiros com uma faca. O Policial Militar que aparece em ação esperava pelo transporte na estação e foi acionado pelos populares.

A sequência do vídeo não deixa claro se, de fato, houve uma investida contra o policial, o que constataria legítima defesa (mesmo interpretando ser possível uma abordagem mais exitosa, antes). Porém, o disparo acabou ferindo também Jorge Luis da Rosa Vidal, de 50 anos, na canela.

Ações precipitadas como esta são comuns. Às vezes nem são precipitadas, mas sim premeditadas. Pelo Brasil, não raro vemos notícias de suspeitos que acabam sendo executados em vielas das mais diversas periferias. Algumas abordagens são desastrosas devido pura incompetência, outras são simplesmente uma limpeza étnica-social.

Pois hoje que me deparo com uma notícia do Sul21, que trás o seguinte título: Em busca de suspeitos, PM de SP orienta abordagem preferencial a ‘negros e pardos’.

Em Campinas, policiais de um bairro nobre receberam a ordem de agirem com rigor caso se deparem com jovens de 18 a 25 anos, que estejam em grupos de três a cinco pessoas e tenham a pele escura. Ou seja, um grupo com três ou cinco pessoas de 18 a 25 anos, brancos, não despertariam qualquer suspeita.

Se isso não é racismo declarado (pois velado é, sem dúvida), é a uma ordem oficial burra e inconsequente. Um atentado contra a imagem da própria instituição.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Os perigos de fazer jonalismo local no Brasil

Segundo levantamento da Federação Internacional dos Jornalistas divulgado no último dia 7, no ano passado 121 jornalistas foram assassinados em decorrência da profissão. O Brasil aparece como o quinto país onde morreram mais jornalistas. O número chega a seis. Todos trabalhavam em sites e veículos de repercussão regional.

É um dado preocupante. Mostra os perigos de mexer com gente graúda num âmbito local. Em muitas cidades pequenas, ainda persiste o coronelismo. Famílias que se portam como donos da cidade, se colocam acima da lei.

O agravante é a pouca repercussão desses casos. Ou alguém sabe quem são esses seis jornalistas mortos? Um certo provincianismo acaba sendo aliado desses delitos, que são graves e acabam indimidando um número inimaginável de profissionais.

O país mais perigoso de se trabalhar é a Síria. Em 2012, foram 35 mortes. Em segundo lugar a Somália, com 18. Logo em seguida, México e Paquistão. Com relação ao ano de 2011, o número de assassinatos aumentou 13%.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Você viu? #18

Vamos mais uma vez, como todas as terças-feiras no PoA Geral, reuni aqui uma série de links com notícias importantes que, provavelmente, não foram manchetes de jornal. Vale conferir uma ou outra. Se der tempo, leia e assista tudo.

Futebol e Violência: A violência das torcidas de Goiás. Vergonha da Justiça brasileira
Blog do PVC, 02 de abril

MST: Sem-terra é morto em Pernambuco após 10 dias do assassinato de líder do MST
Jornal Sul21, 02 de abril

Mídia“O caso de Veja”, de Luis Nassif: Google tira do ar
Vi o Mundo, 02 de abril

Mídia e Corrupção: Policarpo-Cachoeira: uma dupla para limpar o Brasil
Tijolaço, 02 de abril

Opere Mundi, 02 de abril

Mídia e golpe militar: Zero Hora, o golpe de 64 e a ditadura
RS URGENTE, 1° de abril

Blog do Sakomoto, 31 de março

Mídia e Corrupção: Demóstenes, ora Veja
Jorge Furtado, 31 de março

Violência contra a mulher: Brincadeiras perigosas com humanas
Escreva, Lola escreva, 30 de março


Dia 29 de março, no RJ, militares comemoram golpe de 64, e manifestantes protestam

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Intolerância, xenofobia, descaso e incompetência

Relato do absurdo que aconteceu com uma mulher na segunda-feira, na cidade de São Paulo, dado pelo seu irmão ao site Vi o Mundo - O que você não vê na mídia. Reproduzo a seguir:


Mulher denuncia que foi à delegacia registrar acidente, apanhou e foi presa
Prezado Luiz Carlos Azenha,
Como internauta frequentador de sua importante página na Internet (Blog), gostaria de encaminhar importante denúncia pelo que tem de grave contra a cidadania, e reveladora do atual sistema de serviços prestados por nossas autoridades policiais, em São Paulo.
Minha irmã, AMS (nome completo preservado pelo Viomundo), ontem, ao deixar a casa do pai de seu filho, teve um pequeno incidente de trânsito na Av. Pacaembu, quando foi acusada de raspar numa moto.
Ao parar para observar a ocorrência de danos, o motoqueiro, agindo agressivamente, passou a xingá-la e retirou as chaves do contato do carro dela.
Ao ser interpelado pelos maus modos o jovem passou a agredí-la fisicamente com empurrões e socos, quando minha irmã caiu ao chão.
E disse na frente de testemunhas que se chamava Adolf Hitler e que detestava pobres, pretos, gays e nordestinos (minha irmã é de Fortaleza/CE)
Passados os momentos de agressão, minha irmã, tentando se recompor, procurou ir a uma delegacia, mas pelo seu estado emocional, foi-lhe impossível dirigir, tendo que abandonar o carro e procurar a ajuda de um táxi.
Como já é vítima de sintomas de pânico, fazendo inclusive tratamento clínico para o problema, tomou um comprimido de clamante, provavelmente diazepan, e chegou à delegacia sob efeito desse medicamento.
Ao ter péssimo atendimento e reclamar por isso junto ao delegado plantonista, sob efeito de calmante, foi confundida com uma pessoa drogada e recebeu um tratamento inadmissível ao ser chamada de filha da puta.
Retrucou à altura e levou um tapa na cara do delegado!
Foi presa sob acusação de desacato, algemada e colocada numa cela com outras detentas.
Protestou, pediu para ligar para o seu advogado, o que não lhe foi permitido, pois tomaram sua bolsa com seu telefone celular.
Ficou detida numa cela até pouco antes do amanhecer quando foi solta.
No momento em que fazia este relato, estava agora há pouco na Corregedoria de polícia civil para oficializar a denúncia.
Gostaria de solicitar-lhe a gentileza de denunciar o caso em seu blog assim que tivermos uma cópia da denúncia oficial à Corregedoria como prova do fato.
Repercussões através de blogs e canais alternativos, como redes sociais e outros, têm trazido bons resultados ao combate a esse tipo inaceitável de ocorrências no Brasil.
Por favor, ajude-nos.
Atenciosamente,
Luiz Carlos de Moares e Silva
PS do Viomundo: Conversei por telefone com o irmão da vítima. Há 22 anos ele é servidor da Justiça Federal em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. A irmã já denunciou o caso à Corregedoria da Polícia em São Paulo. O advogado dela é Luiz Eduardo Greenhalgh. Foram abertos dois procedimentos para investigação, um operacional e outro criminal. Conversei também com AMS, por telefone. Ela é produtora musical em São Paulo. Confirmou a denúncia do irmão, disse que também foi chamada de ‘vagabunda’ e que ficou numa cela com uma traficante de crack. O boletim de ocorrências foi registrado às 7h30m da manhã, “para que não ficasse provado que passei a madrugada na cela”.

sábado, 3 de setembro de 2011

"Tudo culpa daqueles filhos da..."

Poucos são os que não embrulham o estômago ao ler, na revista Piauí do mês de agosto, o texto-relato do jornalista Nilton Claudino, "Minha dor não sai no jornal". No seu relato publicado na revista, ele conta um pouco da sua trajetória profissional até o momento em que é sequestrado e torturado por uma milícia no Rio de Janeiro e como, a partir de então, sua vida se desajusta completamente.
Nilton ingressou no foto-jornalismo no final da década de 1970. Trabalhou em diversos veículos e ganhou um punhado de prêmios. Na década de 90 iniciou no jornalismo investigativo, incentivado pelo amigo Tim Lopes, que em 2002 foi  capturado e morto por traficantes enquanto trabalhava disfarçado investigando o tráfico de drogas. Felizmente Nilton Claudino não teve o destino macabro do companheiro de profissão. Companheiro que ele ajudou a achar, depois que recebeu uma informação de um anônimo indicando onde Tim estava enterrado. Chorando, fotografou o momento em que a polícia achou a ossada de seu amigo.
Em maio de 2008, trabalhando para o jornal O Dia, do RJ, foi morar no Jardim Batan, uma favela no Realengo, Zona Oeste, junto de uma outra repórter e um motorista do jornal. Disfarçados, obviamente. Buscando, com exito, se integrar na comunidade. O objetivo era investigar um grupo de milicianos que controlavam a comunidade. Em 2007, este grupo expulsou os traficantes e passou a cobrar "taxa de segurança" dos moradores além de lucrarem com venda de gás, tevê a cabo pirata e transporte de vans.
Nilton e seus colegas foram descobertos depois de 14 dias, foram capturados por volta das 21h30 de uma quarta-feira, 14 de maio, e passaram a noite sendo torturados e "julgados". Por sorte, o comando da milícia decidiu que permaneceriam vivos. 
O que lemos no texto de Claudino é muito parecido com o que assistimos há alguns meses no cinema, no filme Tropa de Elite 2. E é chocante, porque o texto é real, sem nenhuma dose de ficção. Um dos trechos mais preocupantes do texto, escrito na primeira pessoa, começa com um dos milicianos se dirigindo ao jornalista:
"'Então parece que o problema é com a família', respondeu 01. 'Você vai morrer e precisa saber que foi alcaguetado por amigos de dentro do jornal. Vou provar: você tem na sua baia de trabalho as fotos de um de seus filhos tocando guitarra. Seus filhos são lindos. Você mora na zona sul'., disse, completando em seguida com meu endereço exato.
Gelei, e ele continuou: 'Vocês são uns bundões. Foram alcaguetados por seus amigos. Temos informantes em tudo o que é jornal e televisão'."
Outro trecho diz o seguinte:
"A repórter reconheceu a voz de um vereador, filho de um deputado estadual. E ele a reconheceu. Recomeçou a porradaria. Esse político me batia muito Perguntava o que eu tinha ido fazer na Zona Oeste. Questionava se eu não amava meus filhos."
Nilton não vive mais no Rio de Janeiro, nem vê mais seus filhos e sua esposa, nunca mais viu seus amigos, sequer seus ex-colegas. Se afastou de tudo e de todos, e também do que já fora uma dia. Diz ser impossível viver ao lado das pessoas de que gosta sabendo o risco que correm por sua culpa. Sua culpa? Encerra dizendo que: "A tortura continua. Tudo culpa daqueles filhos da puta." 
Histórias como essa não pautam a grande mídia. Não vi nada no JN, no Fantástico, na Folha. Perdoem-me se estiver errado, mas não vi. Em compensação, a cada semana, uma alegoria jornalística que ilustra a capa da Revista Veja, é motivo de repercussão desproporcional. Que piada.

sábado, 13 de agosto de 2011

Relato direto de Londres

Cris Rodrigues é jornalista, de Porto Alegre, mantém o blog Somos Andando e passa por uma temporada em Londres, na Inglaterra. O texto a seguir foi publicado dia 12 de agosto no seu blog.

A vida em Londres volta ao normal - ou quase
Cris Rodrigues, adaptado do texto publicado no Jornal Sul21
As já muito frequentes e barulhentas sirenes de Londres parecem ter se multiplicado no começo da semana. A elas, somaram-se o barulho de helicópteros sobrevoando a cidade e 16 mil policiais perambulando pelas ruas. No quarto dia da onda de manifestações que varreu a capital britânica, muitas lojas fecharam as portas no meio da tarde. Em Kentish Town Road, uma avenida relativamente distante de qualquer distúrbio, uma pequena tabacaria familiar era um dos poucos estabelecimentos abertos às 20h de terça-feira (9). Dentro, duas mulheres estavam tranquilas e sem medo, mesmo vendo a filial de uma grande rede de supermercados do outro lado da rua de portas fechadas desde as 15h, sob o anúncio de que funciona até as 23h todos os dias da semana.
Era dia claro ainda, mas as ruas estavam quase vazias, longe do normal para uma cidade em que circula tanta gente o tempo todo. Terça-feira foi o dia em que mais sentia o medo no ar, sensação que acabou alterando a rotina de muita gente. Mas naquela noite não houve registro significativo de incêndio, depredação ou roubo, como os ingleses tinham visto nos dias anteriores. Ninguém entendia muito bem o que estava acontecendo ou, principalmente, por quê.
Sharon e Gurmit Johal, donas da tabacaria há 15 anos, não estavam assustadas, mas muita gente se recolheu cedo ou nem foi trabalhar, com medo de que algum protesto violento pudesse acontecer no meio do caminho. Andar nas ruas era estranho, pelo vazio de pessoas e pelo som de helicópteros sobrevoando a cidade, que remetiam a um clima de pré-guerra civil, como se algo muito grave estivesse a ponto de acontecer.
Mas não foi e não é uma guerra civil o que Londres viveu nos últimos dias. Além do estrago no local das manifestações, que em alguns casos deixaram um prejuízo enorme e, em outros, apenas quebraram umas poucas vitrines, houve alguns problemas com transporte, como ônibus que mudaram de rota ou estações de metrô fechadas, que foram rapidamente solucionados. Mas as vidas da imensa maioria dos londrinos não foi alterada mais do que algumas horas, e a maioria já não sentia medo ao andar nas ruas no dia seguinte.

Violência é reflexo de uma sociedade doente e desigual
Tudo começou com o suposto assassinato de um homem negro, popular em sua comunidade, por agentes da polícia britânica, na noite da quinta-feira passada (4). Dois dias depois, foi feito um protesto pacífico nas ruas do bairro de Tottenham, no norte de Londres, que registra altos índices de desemprego, maiores do que a média já elevada da capital. Mas o protesto acabou em incêndio de prédios, carros e ônibus. Ainda mal explicada, a morte de Mark Duggan foi a gota d’água para que a insatisfação popular tomasse as ruas em uma onda de protestos sem precedentes na história recente da Inglaterra. Ao mesmo tempo, tornou-se um subterfúgio, uma desculpa para saques, incêndio e depredação de bens materiais em diversos bairros da capital e em cidades do interior da Inglaterra.
Em lugares de perfis muito diferentes, alguns pontos havia em comum. Principalmente o fato de a grande maioria dos participantes ser muito jovem. Em Chalk Farm, por exemplo, perto do bairro de Camden Town, que ficou conhecido no mundo inteiro no mês passado por ser onde a cantora Amy Winehouse morava, o grupo não era grande e girava entre 16 e 25 anos, segundo o policial Gary Cooper, que na terça cuidava da rua que teve a vitrine de quatro lojas quebradas na noite anterior.
Ele era um dos 16 mil policiais que vigiavam as ruas de Londres acionados pelo primeiro-ministro inglês para conter a violência. O conservador David Cameron parece ser o principal interessado em não discutir as causas e em não buscar interpretar o que estes jovens estão querendo dizer. Ele repetiu ontem (qunta-feira, 11) a afirmação que havia feito no início da semana de que se trata apenas de “criminalidade, pura e simples”, quando o momento já não era mais de reagir rapidamente, mas de analisar as causas e procurar a melhor forma de encarar o problema. No mesmo pronunciamento, disse ainda que os envolvidos são muito jovens, e, portanto, não se trata de protesto político, mas de roubo. E jogou a responsabilidade para os pais, por não saberem onde e com quem seus filhos estavam. No único momento em procurou alguma explicação social, Cameron tratou de descartar qualquer relação com desigualdade: “As crianças crescem sem saber a diferença entre certo e errado. Não tem a ver com pobreza, mas com cultura. A cultura de glorificar a violência, desrespeitar autoridades e saber tudo sobre direitos e nada sobre responsabilidades”. Isso no momento em que a Inglaterra vive a pior crise econômica dos últimos 50 anos, segundo o prefeito de Londres, Boris Johnson, do mesmo partido de David Cameron.
Ainda que sejam mesmo crianças e adolescentes desorientados buscando apenas vandalismo, mesmo que não entoem palavras de ordem bonitas e não bradem por liberdade, igualdade e fraternidade, estes “rioters” são um reflexo de um problema social.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Lista suja do trabalho escravo

Na atualização semestral da "lista suja" feita pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MET), divulgada 31 de dezembro do ano que passou, 88 novos empregadores. A lista agora denuncia 220 infratores que mantêm pessoas em situação de escravidão. No Rio Grande do Sul, quatro casos:

- Cleber Vieira da Rosa & Cia.Ltda – RST-101, km 154, n° 5000, Mostardas, corte de pinus, 3 trabalhadores flagrados em situação de trabalho escravo.
- De Bona e Marghetti Ltda – RSC 101, São José do Norte, corte de pinus, 5 trabalhadores flagrados em situação de trabalho escravo.
- Ricardo Peralta Pelegrine – Zona Rural, Cacequi, 4 trabalhadores.
- Valnei José Queiroz – RST-101, zona rural, Capão de Areia, São José do Norte, 6 trabalhadores.

É uma situação quase que inimaginável em pleno século XXI que pessoas ainda pratiquem esse tipo de crime contra a liberdade individual. A lista é reconhecida internacionalmente como importante meio de combate à escravidão. No Brasil, instituições como o Banco Brasil, Caixa, BNDS, suspendem a contratação de financiamentos e o acesso ao crédito. Bancos privados também estão proibidos de conceder crédito aos citados na lista.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Filme de Segunda

Kick-Ass - Quebrando tudo
Fiquei realmente empolgado assistindo Kick-Ass! As aparências enganam mesmo, e Kick-Ass já surpreendeu muita gente. A maioria delas, positivamente. Não se trata de uma simples comédia para nerds, não se trata de um simples drama, nem de um simples filme de ação ou de uma simples adaptação de HQ. O filme é tudo isto, o que não o torna simples. É um grande filme.
O tema: super-herói. Normal para uma adaptação de HQ. Porém a grande sacada da história, originalmente criada por Mark Millar, é de que o herói é um adolescente absolutamente normal, sem grandes feitos nem defeitos, que passa as horas vagas lendo histórias em quadrinhos com seus dois amigos nerds. Esse cara está cansado da monotonia, de não acontecer nada em sua vida, ao mesmo tempo em que se pergunta o por quê de até então ninguém ter tido a idéia de pôr uma fantasia, uma máscara e sair por aí combatendo o crime, como muito se faz nos quadrinhos e no cinema. Então ele decide ser esse cara.
O diretor Matthew Vaughn trabalhou na adaptação junto com o roteirista Jane Goldman. O trabalho é impecável desde a escolha do elenco. Aaron Johnson, ator que encarna o nosso herói Kick-Ass, também é o protagonista em O garoto de Livepool, fazendo o Lennon. A espetacular atriz-mirim Chloe Moretz dá um show interpretando a violenta Hit Girl. Ainda tem o hilário McLovin (Christopher Mintz-Plasse) de Superbad, fazendo o aspirante de vilão Red Mist, e o coadjuvante Nicolas Cage, muito bem, discreto, sem ofuscar a meninada, fazendo o Big Daddy.



Kick-Ass é um verdadeiro divertimento, mas não é filme para familia toda ou para qualquer público, passa longe de ser um homem-aranha. Apesar do climão besteirol e do clima super-herói, o filme se leva a sério, tem momentos tensos, de mexer com o espectador, e tem muita violência, regado à humor negro, a la Tarantino. Propício à chocar desavisados.
Quando o personagem Dave Lizewski decide comprar sua fantasia pela internet e sair por aí fantasiado de herói e batendo em bandido, ele bate é de frente com a realidade. Na pele do Kick-Ass, Lizewski apanha muito e por diversas vezes vê sua vida por um fio. Na sua realidade sem máscaras, chega ao cúmulo de fingir ser gay para se aproximar de uma garota. Com dramas comuns a muitos adolescentes, redes sociais, internet, música, relacionamentos, violência etc, Kick-Ass - Quebrando tudo sabe também ser uma crônica dos dias atuais.
No momento em que Dave Lizewski descobre que ele não é o único louco que vai para as ruas de Nova York vestido de super-herói, a história cresce, mistura o fantástico com o real e torna tudo muito crível, dramático e engraçado. Não há nada parecido no cinema, Kick-Ass é totalmente original. Filmaço!
Classificação PoA Geral
- Obra
X Baita Filme
- Bom Filme
- Bem Bacana
- Legal
- Meia-boca
- Ruim
- Péssimo
- Inclassificável

TRAILLER AQUI

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Vibração, Poder e Violência

Diferentes entre si, Torcidas Organizadas de Grêmio e Internacional superam dificuldades e mantêm viva uma forma particular de encarar o futebol
Por Alexandre Haubrich e Douglas Skrotzky (Reportagem publicada parcialmente na revista Trivela, em 2007. Aqui, na íntegra)

É 31 de julho de 2006. Domingo de sol em Porto Alegre. Final de tarde. Enquanto uma multidão começa a deixar aos poucos o Parque da Redenção, outra multidão se encaminha para o Estádio Beira-Rio, onde, às 18h10min, começa o 366° clássico Grenal da história. Pouco antes disso, cerca de 5 mil gremistas chegam ao local da partida escoltados pela cavalaria da Brigada Militar e sob intensa chuva de garrafas e pedras, algumas das quais atiradas de volta. Nada que não fosse esperado em um Grenal. Pouco antes das 18h, já dentro do estádio, torcedores do Grêmio derrubam a cerca que os separa da social do Internacional. Alguns socos e a Brigada chega, resolve, e sai. Normal. 19h. Um banheiro químico é carregado e arremessado por torcedores visitantes para fora da arquibancada. E mais um. E mais outro. E nada de a Brigada agir. Quando a polícia chega, já há banheiros em chamas e a fumaça negra espalha-se pelo Beira-Rio, criando um ambiente de guerra civil e tornando o ar irrespirável em um local destinado à prática de esportes. O jogo pára. Do outro lado do campo, integrantes da Guarda Popular, mais nova torcida do Inter, e da Camisa 12, mais antiga Torcida Organizada do sul do país, olham atordoados. Alguns ainda tentam correr em direção ao tumulto, mas não conseguem chegar até lá. A Nação Independente Comando Vermelho, que está junto da grade que separa as torcidas, só que do outro lado, nas arquibancadas, chega a ameaçar invadir o espaço da torcida visitante, mas ali há policiamento. A tensão toma conta de cada um dos presentes. Por sorte – e por pouco –, nada mais sério acontece. 

No dia seguinte, o presidente em exercício do Grêmio, Túlio Macedo, divulga nota na qual suspende por tempo indeterminado os privilégios concedidos às três Torcidas Organizadas do clube – Torcida Jovem, Garra Tricolor e Super Raça. As sedes no Estádio Olímpico são lacradas, soldadas. Nada mais de ingressos subsidiados ou ajuda nas viagens. Nada de instrumentos de música no Olímpico. Nem com os uniformes identificando as Torcidas se pode mais entrar. Geral do Grêmio e Máfia Tricolor, independentes em relação ao clube, não sofrem nenhuma punição. A Geral, inclusive, assume definitivamente o status de principal torcida do tricolor gaúcho. 

O promotor de eventos André, o Folha, presidente da Torcida Jovem do Grêmio, defende-se: “A participação da Jovem no episódio dos banheiros foi nenhuma. Muita gente da Geral, já na entrada do estádio, estava com essa idéia, querendo bagunçar, fazer confusão. Por isso mesmo a gente já se posicionou longe deles. Eles estavam bem pro lado da social, e a gente foi bem pro lado das arquibancadas. Quando começou o tumulto, eu e o pessoal da diretoria afastamos os caras da Jovem”. Thiago Fernandes, o Telo, estuda administração e é relações públicas da Garra Tricolor. Ele também nega envolvimento no tumulto: “Eu mesmo estava perto e disse para ninguém da Garra ir. Tinha muito filho de diretor, de conselheiro no meio, então resolveram nos pegar como bodes expiatórios. Na reunião, depois, um diretor do Grêmio disse: ‘Se eu não punir vocês, vou punir quem?’ Mas eles pegaram as imagens da TV e não tinha ninguém com camisa das Organizadas”. Parece ser consenso que os responsáveis pelo ocorrido foram os integrantes da Máfia Tricolor e da Geral do Grêmio. Moreno Silva, estudante de Jornalismo da Unisinos e um dos líderes da Máfia, admite: “O que aconteceu com os banheiros no Beira-Rio foi a Máfia e a Geral que fizeram. Não tinha ninguém das Organizadas. Os caras das Organizadas tavam lá quietos, em uns 20 cada, até pedindo pra ninguém deles ir. Foi uma desculpa pra fechar, porque não tava dando retorno pro clube”. Finalmente, o diretor financeiro do clube, Mauro Rosito, resolve a questão definitivamente: “O evento dos banheiros foi debitado de forma genérica às Torcidas Organizadas. Se foram eles ou não, a gente não sabe. Não foram identificados, mas tínhamos que mostrar atitude ao setor público”, reconhece o dirigente.


Independentes e violentos, com orgulho 

Quando chegamos à estação central do trem em Canoas, na grande Porto Alegre, somos recebidos por um rapaz que veste uma jaqueta na qual podemos ler “Máfia Tricolor”. Um boneco em posição de luta, o mascote Notredame, estampa o casaco. Seguimos o rapaz até a frente de uma casa abandonada, com as paredes desenhadas e rabiscadas com símbolos e assinaturas, local de reuniões diárias. Sentado em um degrau e cercado por uns dez jovens e três garotas, está Moreno Silva, principal líder da torcida mais violenta do Grêmio. 

A Máfia Tricolor foi fundada no final de 1995 com 250 membros, juntando os “maus elementos de todas as outras torcidas”, segundo o próprio Moreno. Um ano depois, em um jogo no Olímpico contra o Atlético Paranaense, torcedores visitantes foram esfaqueados. A Máfia mostrava a que veio. Nos meses seguintes, assaltos à sede da Torcida Jovem e à loja do Grêmio, e o banimento. Nenhum material que levasse o “Notredame” poderia entrar no estádio. Mesmo assim, conta hoje com cerca de 300 participantes, a maioria de Canoas, e leva em média 70 pessoas às partidas. A maioria nem entra nos jogos. Apenas roubam, no caminho entre o Mercado Público – onde descem do trem - e a Azenha, e nos entornos do estádio. “Tem gente da Máfia que nunca entrou no Olímpico, que não sabe nem o nome do goleiro do Grêmio Só vai lá pra arrumar uma grana mesmo”, conta Moreno. Quem entra utiliza-se de outros meios. Algumas vezes, pedem para os cambistas venderem os ingressos ao preço da bilheteria. Resposta negativa significa roubo quase certo. Mas o foco principal não é esse. A maioria anda armado, principalmente com facas e soqueiras. Isso porque as brigas são o ideal que move a Máfia Tricolor. “A ideologia da Máfia é briga. A gente apóia o Grêmio, mas tem que ter porrada também”, diz, com um sorriso, um jovem de 17 anos, com o que os outros concordam. 

A rivalidade com o Internacional beira uma situação de guerra. Amigos colorados, só se for de infância. Depois que entra para a torcida, nada de novas amizades entre rivais. Todo colorado é inimigo. “Não precisa nem ser de torcida. Se é colorado e olhou meio torto já tá apanhando”, garante Gadê, 18 anos. Ainda assim, há um grupo de torcedores com o qual a relação é pior: a Nação Independente Comando Vermelho (NICV). Moreno conta que a Máfia roubou a faixa da qual a torcida rival mais se orgulhava. A Nação teria oferecido mil reais por ela de volta. Eduardo Capitinga, vice-presidente da torcida colorada, criada em 1992, rebate: “A Máfia, os Marias, é uma imitação da NICV. Quando fundamos a nossa facção, um tempão depois surgiu a Máfia. Por que será que no nome deles tem Independente também?”. A psicóloga social Juliane Farina explica que a sociedade vê esses grupos de duas maneiras. “Alguns vêem como uma massa de perigosos, de pessoas violentas. Mas também há quem glamourize, principalmente como um reflexo da mídia, que trata tudo isso como um espetáculo. O cara se destaca por ser violento. É um modo de se sentir alguém”. 

Continuamos sentados nos degraus conversando com o grupo. À nossa frente, no muro, garotas aparentando 16 ou 17 anos conversam com outros integrantes da torcida. Perguntamos se muitas mulheres fazem parte da Máfia. E as respostas, de certa forma, corroboram a explicação de Juliane. “Tem bastante guria. Pra essas aqui é Ibope dizer que pegou alguém da Máfia, é status”, responde Moreno. Uma das garotas completa: “Somos as PMG: Pegadoras de Máfias Gostosos”. Mauro Rosito, diretor do Grêmio, diz que ouve falar da Máfia, mas nunca viu ninguém identificado com a camiseta. A faixa de idade vai de 12 a 30 anos, e a escolaridade é muito baixa. “Quase ninguém aqui estuda ou trabalha. Quinta série já é lucro”, explica Latino, 18 anos. Gadê volta à fala, para contar que já levou uma facada e um tiro. E completa: “a gente não tem medo. Quando um dos nossos aparece quebrado, a gente vai atrás de quem quebrou”. Moreno já apanhou, segundo ele, de 40 integrantes da Geral, no Parque da Redenção, porque membros da Máfia haviam assaltado “geraldinos”. “Isso aqui é a minha vida, é o que eu amo fazer. Nunca vamos virar Torcida Organizada oficialmente. A gente não evolui, só piora mais”, diz.


Nação (nem tão) Independente 

Nascia, em 1992, uma torcida que se propunha a ser a primeira Organizada independente no Estado. 15 anos depois, a Nação Independente Comando Vermelho ainda carrega no nome um adjetivo que já não faz parte da linha que segue. Com uma sala no Beira-Rio para guardar materiais e ingressos subsidiados pela diretoria, a NICV conta hoje com cerca de 300 componentes, metade dos 600 integrantes de sua fase áurea. Esse enxugamento tem relação direta com a vinculação ao clube, que desagradou a muitos. 

Seguindo, atualmente, a regra geral das outras Organizadas do Inter, a Nação possui, no Beira-Rio, uma pequena sala para guardar seus materiais, ganha uma cota de 200 ingressos do clube e permissão de entrar nos jogos com faixas e instrumentos. Por outro lado, não há cobrança de mensalidade, diferenciando-se das outras duas, Super FICO e Camisa 12. Isto em parte por causa do baixo poder aquisitivo da maioria dos integrantes, mas também porque não possui um espaço próprio para oferecer aos associados. A médio prazo, um dos objetivos, aliás, é a busca por uma sede. Eduardo Capitinga, vice-presidente da Nação Independente, conta qual o maior sonho de dez entre dez membros da Torcida: “Nosso sonho realmente é nos tornar, novamente, independentes do clube, todo mundo sendo sócio do Inter e da nossa facção”. 

O cadastro feito no clube também é igual ao de Camisa 12 e Super FICO. Com todos os dados do componente, deve ser enviado ao Batalhão de Operações Especiais (BOE), para ser aprovado pela equipe da Brigada Militar que trabalha nos estádios. 

Todos estes procedimentos só existem porque, em 1995, a diretoria do Internacional obrigou a Nação Independente Comando Vermelho a tornar-se dependente. Mesmo assim, Capitinga garante que possuem o direito de cobrar. “Se tem que cobrar da diretoria melhorias para o time, cobramos! Mas sempre com a idéia de apoiar o time”. O advogado Eduardo Araújo, diretor de Torcidas Organizadas do Internacional, dá a entender uma posição um pouco diferente. “No momento em que tem subsídio e protesta, o clube tem o direito de tirar o subsídio”. Talvez por isso a Nação queira tornar-se, novamente, Independente.


Grêmio e Inter opostos até no tratamento dado às Organizadas 

“Se usam camisetas identificadas com as torcidas ou não, se são subsidiadas ou não, se são subsidiadas por baixo dos panos ou não, o que não pode é lavar as mãos”. A opinião do Promotor de Justiça e Direitos Humanos do Ministério Público, Renoir Cunha, vai de encontro às ações distintas realizadas pela dupla Grenal no sentido de controlar seus torcedores. 

Oficialmente, o Grêmio não possui Torcidas Organizadas desde o episódio da queima dos banheiros químicos. Porém, sabe-se que a Geral recebe ônibus para viajar e ingressos para jogos fora de casa. Além disso, há quem diga que o Grêmio dá dinheiro para comidas e bebidas nas viagens. Como uma forma de controle, o clube também cede dois ou três ingressos e vagas em excursões para os principais líderes da Torcida Jovem, da Garra Tricolor e da Super Raça. 

Desde alguns anos atrás, as Organizadas do Grêmio já vinham em processo de declínio acentuado, graças, principalmente, à ascensão da Geral. Não interessavam mais ao clube, que vinha buscando várias formas de extingui-las. Segundo o diretor financeiro Mauro Rosito, algumas lideranças teriam pedido indenizações generosas demais para terminarem com as Torcidas. Ele garante ainda que, em várias situações anteriores, estes grupos quase foram fechados, mas questões políticas faziam baixar a poeira. “Então nos aproveitamos daquela situação alarmante de 11 jogos de suspensão, com todo mundo pressionando. Chamamos um soldador para fechar as portas das sedes”. Há ainda denúncias de que o Grêmio pagava salários para os presidentes das Organizadas. Rosito diz desconhecer o fato. 

Diz-se, ainda, que a direção gremista tem favorecido a Geral por medo. “O Grêmio tem problemas com a Geral, e dá ônibus por medo”, garante Eduardo Araújo, diretor do Inter. Telo, relações públicas da Garra, explica que a relação com a direção é péssima. Com o fim da Copa Libertadores, ele promete intensificar os contatos com os dirigentes em busca do fim da suspensão. A Jovem também se mobiliza para tentar voltar, com a associação em massa – hoje são 50 sócios – e o cadastramento de todos os componentes – atualmente, cerca de 200 são cadastrados na Torcida. Rosito, porém, é taxativo: “Não existe a menor possibilidade de qualquer uma destas torcidas voltarem. O modelo que gostamos e que queremos para o Grêmio é o da Geral”. 

No Beira-Rio, a relação com estes grupos é bem diferente. Ao menos na aparência. São 500 cadastrados da Camisa 12, 350 da Super FICO e 200 da Nação Independente. O Internacional ainda dispõe alguns ingressos para cada uma dessas torcidas, além da permissão para entrar no estádio com faixas e instrumentos e das sedes onde ficam guardados estes materiais. A Camisa 12 possui ainda uma sala própria no Ginásio Gigantinho. 

Porém, por trás da aparente calmaria, ocorrem disputas internas que, não fosse a força política e a quantidade de membros que as três Torcidas Organizadas do Inter possuem, já teriam resultado em seu fim. Um dos principais problemas diz respeito ao crescimento da Guarda Popular, e ao aval dado pela direção do clube a essa torcida. Sem cadastramento e sem intenção de fazê-lo, a Popular desperta sentimentos opostos entre dirigentes e outros torcedores. O presidente da Camisa 12, Miguel Dagnino, estudante de Relações Públicas, está há 15 anos na Torcida. E denuncia: “O recadastramento, feito pela direção há uns 4 anos, acabou fundando a Guarda Popular. Muitos que eram cadastrados antes não se recadastraram porque tinham ficha na polícia, ou outros motivos. Aí foram torcer atrás do gol, que era mais barato, e formaram a Guarda”. O diretor de Torcidas Organizadas do Inter, Eduardo Araújo, vê a questão por outro prisma: “As brigas com a Popular sempre partiram da 12, por ciúmes”. 

Além desta, existem outras questões mal resolvidas, especialmente a partir da gestão de Fernando Carvalho como presidente do Inter – de 2002 a 2006. “A gestão do Carvalho foi a melhor da história do Inter, mas a pior para as Torcidas Organizadas. Um dos principais fatores para a diminuição da Camisa 12 foi a traição do Carvalho. Antes da eleição, nos pedia apoio, prometia ajudar. Depois que foi eleito, a gente teve que invadir o gabinete dele pra fazer reunião”, reclama Miguel. Por fim, Eduardo Araújo expõe uma divergência com o presidente da Super FICO, Marcelo Kripka, há 28 anos no cargo: “O Marcelo vive da Super FICO. O ingresso serviria para fazer bandeira, viagens. Para sustentar a torcida, não o presidente, mas foi distorcido. É uma forma de desviar dinheiro do clube”.

A torcida e o presidente mais antigos do sul do país 
A Super FICO (Força Independente Colorada) foi fundada no ano de 1977. Foi realmente independente até 1982. Há 29 anos na Torcida e 28 na presidência, Marcelo Kripka classifica a FICO como “uma família”. Diz que continua no cargo porque há consenso em torno do nome dele e que o cargo está à disposição. Foi a primeira Organizada a ter núcleos no interior, e comporta desde jovens até idosos e idosas – “tem mulheres de mais de 80 anos que vão religiosamente ao Beira-Rio com a gente”. 

Sobrevivendo de mensalidades, contribuições e ajuda da diretoria, a Torcida tenta ser a mais “família” do clube. Mesmo assim, não escapa à regra de decadência vertiginosa nos últimos anos. Desde a fundação, são em média 2 mil cadastrados, mas a presença nos jogos hoje não passa de 150. Ainda na linha família, o presidente garante que a relação com a Brigada Militar e com a imprensa é boa. Diz que tanto uma como a outra têm consciência de que a FICO é diferenciada. “A imprensa poupa e coloca a gente em outro saco com relação às outras Torcidas”, garante ele. O convívio com estas outras também é tranqüilo. Nas partidas, ficam na arquibancada superior, logo acima da Popular, e acompanham os cânticos desta. Sobre a Camisa 12, Marcelo lembra que Miguel foi o único integrante de Organizada a viajar ao Japão quando da disputa do título mundial, e levou para o outro lado do mundo uma faixa da Super FICO. Ainda assim, existem discordâncias. A influência da 12 claramente incomoda, e sua política de alianças não tem apoio irrestrito, pelo menos do presidente de Torcida Organizada mais antigo do sul do Brasil. 

Máfia Azul, do Cruzeiro; Independente, do São Paulo; Jovem Fla, do Flamengo; e Jovem do Sport são sempre dignas de ótima recepção em Porto Alegre. São elas as integrantes da União do Punho Cruzado, nome da coalizão da qual faz parte a Camisa 12. Churrascos, indicações de locais para passear, troca de camisetas, calças e jaquetas com os símbolos das torcidas e até hospedagem. É assim que se estabelecem as alianças entre as Organizadas. Para saber quem vira aliado de quem, é só ficar de olho nas rivalidades locais. Quem é amigo do Inter, não é amigo do Grêmio, e assim por diante. É essa política que incomoda Marcelo, mas que demonstra a força e a influência da Camisa 12, respeitada onde vai. Afinal, 37 anos de existência não é para qualquer um. Durante esse tempo, quase 30 mil pessoas foram sócias da 12. Atualmente são 500 com cadastro no clube, com impressão digital, foto, comprovante de residência e de bons antecedentes. E esses são apenas os cadastrados, com este número limitado pelo Inter. Segundo Renato de Souza, o Valderrama, secretário da Torcida, em jogos mais importantes pode chegar a 1,5 mil o número de componentes da 12 no Beira-Rio. 

O punho cruzado da aliança significa “União e Atitude”, conceitos que refletem nas ações, para o bem e para o mal. Miguel não tem papas na língua para criticar dirigentes. Graças a um acordo firmado com o Ministério Público, a direção não disponibiliza mais ônibus para os torcedores das Organizadas. “Não nos deixam mais viajar com o clube. Queremos viajar para mostrar as nossas faixas pras outras torcidas, mostrar que o Inter é forte, mostrar para os jogadores que a gente tá lá vendo o que eles estão fazendo. Não queremos viajar para fazer turismo, e a direção não entende isso”, diz Miguel. E não poupa as outras Torcidas do próprio time: “A Super FICO tem o mesmo presidente há 30 anos. É ele e uns dez caras que ficam em volta. A nossa sede está aberta todos os dias, a deles não. São ideologias diferentes”. Ao mesmo tempo, a personalidade forte da Camisa 12 e de seu líder causam também algumas confusões: “A gente já se pegou com a Guarda (Popular) três vezes. E demos um pau neles nas três vezes. A diferença é que nós somos organizados, somos uma família. Cada um sabe quem bate onde e quem segura”. 

Sobre o auxílio constante dado pelo clube, Miguel garante que isso não implica em impedimento aos protestos, mas admite que não há cobranças mais fortes há algum tempo: “A última vez que vaiamos o time foi na época do Miranda (Fernando Miranda, presidente do Inter em 2001), aí tiraram nossos recursos. Mas a gente não é vendido”, afirma. 

Por fim, uma frase de Valderrama demonstra a forma como a Camisa 12 é encarada por seus membros: “A Camisa 12 é a nossa vida, a nossa família, nossa segunda casa”.



Suspensos, não mortos 

Oficialmente, não existem mais Torcidas Organizadas do Grêmio. A Super Raça Tricolor, que chegou a ser a mais importante do clube por alguns anos, realmente é hoje praticamente inexistente como torcida. Porém, Torcida Jovem e Garra Tricolor, apesar de sinais de desgaste, mantêm-se na ativa. A Jovem, inclusive, tenta voltar, aos poucos, mesmo que sem o apoio do clube. “Do Grêmio a gente não espera mais nada. Estamos entrando em uma parceria com a Brigada Militar, para aos poucos entrar com material, desde que tenha bom comportamento”, diz o presidente da Torcida, o promotor de eventos André, mais conhecido como “Folha”. A estrutura administrativa está bem formada, e acompanha o padrão das grandes, como a Camisa 12. Presidente, vice, e um diretor para cada setor – diretor social, diretor de faixas, etc. 

Criada em 1977, o auge da Jovem foi entre 94 e 95, acompanhando a tendência de crescimento, naquela época, de todas as Torcidas Organizadas. Durante aqueles anos, chegou a 1,5 mil membros. Como maior Organizada do Grêmio atualmente, também ajuda a ditar as alianças com Torcidas de outros Estados. Mancha Verde, do Palmeiras; Galoucura, do Atlético Mineiro; e Força Jovem do Vasco são as principais. É também nas viagens que confirma sua influência: “Mesmo a gente tendo dez vezes menos membros que a Geral, quando o Grêmio joga fora é a gente que as torcidas aliadas tratam melhor. A gente já tem uma história. Somos respeitados”. 

Folha explica que está nascendo uma nova cultura dentro de algumas Organizadas, inclusive a Jovem. A idéia de uma sede maior, fora do estádio, é um dos objetivos. Já possuem um espaço, no Centro da Capital. “Esse pessoal da geração nova da Jovem sempre teve essa idéia diferente, esse sonho de ter uma sede própria fora do Olímpico, como as sedes que as torcidas de São Paulo têm. Lá, eles têm academia dentro da sede, têm piscina...”. 

Sobre uma possível volta das Torcidas do Grêmio, Folha é taxativo: “Não deviam liberar todas, deviam voltar o olhar para as que realmente estão fazendo por merecer, se interessando em se organizar”. 

A Garra Tricolor é mais nova – nasceu em 1982 – e menor. Cada vez menor. Seu quadro tem minguado de forma acentuada depois do Grenal dos banheiros queimados. Muitos integrantes passaram para a Máfia. Até o mal-fadado clássico, eram em média 400 membros em cada jogo. Hoje, não passa de 150. Até por ser menor, não procura competir com a Geral. Na verdade, muitos componentes costumam assistir aos jogos do local onde costumam ficar os “geraldinos”. Entre estes, está Telo, RP da Torcida. Ele acredita que, este ano, a Garra cresceria muito, por causa da Libertadores, mas o banimento impediu. Dependendo da partida, o clube dava de 200 a 400 ingressos, dos quais a venda cobria os gastos com bandeiras, faixas, etc. 

Sobre a imprensa, não mede as palavras: “A relação com a imprensa é uma m****. Se tu é de uma Torcida Organizada, é um marginal”. 

Expulso da Super Raça porque brigava demais, Telo está há 8 anos na Garra, mas garante que hoje está mais tranqüilo: “Diretor não pode brigar nem apanhar. Geralmente quem briga mais é menor, é gurizinho com cara de mau, metido a malandro”.

Os braços da lei 
Ministério Público e Brigada Militar são as duas instituições responsáveis por conter os ímpetos mais agressivos de qualquer torcedor, em particular dos membros de Torcidas Organizadas – que costumam das mais trabalho. 

Três horas antes de cada partida, policiais do Batalhão de Operações Especiais (BOE) fazem uma revista completa no estádio. Depois, ninguém mais entra sem ser revistado. O trabalho é árduo, mas necessário. Mesmo que nem sempre agrade a todos. Críticas à violência da Brigada são recorrentes. “A polícia já vai para o estádio com maldade”, diz Telo. Mauro Rosito também reclama: “Há uma falta de competência de alguns setores. Por exemplo, o caso do Beira-Rio. Os caras foram até lá em cima, pegaram os banheiros, derrubaram, levaram para baixo, quebraram, jogaram no fosso, botaram fogo e não chegava nenhuma autoridade”. 

As revistas, como qualquer um que já foi a um estádio sabe, são superficiais, o que ocasiona muitas falhas de segurança, com a entrada de materiais muitas vezes proibidos, como sinalizadores e até bombas caseiras. O sub-comandante do BOE, Major Maciel, questiona esse tipo de crítica: “Dizem que essas coisas entram nos tênis, por exemplo. Um sinalizador não cabe em um tênis de jeito nenhum. É impossível. Quando entra sem autorização, é porque há conivência de alguém da administração”. 

Nos poucos meses em que ocupa esta posição, o sub-comandante já vê grandes melhorias. “Desde que assumimos, passamos a chamar as lideranças para conversar. No início existiu uma resistência maior, como sempre existe, mas hoje a relação é de entendimento”. 

Os casos tratados pelo BOE são então encaminhados para o Ministério Público. O Promotor de Justiça e Direitos Humanos do MP, Renoir Cunha, também percebe evolução, e acredita que a grande responsabilidade é mesmo dos clubes: “Assumindo ou não a existência das Torcidas Organizadas, o clube tem que ser responsabilizado de qualquer forma, porque um jogo de futebol é um evento privado. Tudo é uma questão cultural, e a cultura dos clubes melhorou muito. Eles estão entendendo melhor essa responsabilidade que têm”. Mauro Rosito concorda: “Trabalhamos ombro a ombro com o Ministério Público, buscando soluções que tornem o futebol cada vez mais saudável”. 

Um Termo de Ajustamento, assinado entre MP, Grêmio e Internacional, também tem ajudado na solução de problemas mais localizados, como divisões entre torcidas e lugares individualizados nos estádios, em cumprimento ao Estatuto do Torcedor. Em caso de não cumprimento do Termo, multa diária. Mas há flexibilidade. “Se vemos que há boa vontade, mesmo que às vezes haja dificuldades, financeiras principalmente, trabalhamos com bom senso”, diz Renoir.

Futuro cada vez mais incerto 
Ainda é impossível saber qual dos dois modelos adotados por Grêmio e Inter é o mais efetivo no sentido de controlar as Torcidas Organizadas. Fato é que, queiram ou não, elas existem, com suas ideologias, perfis e ações particulares. Entender estas diferenças pode ser um caminho.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Banalização do bullyng

Muito tem se falado no bullyng, muito. E isso é bom, pois o bullyng é algo que me preocupa, e deve preocupar a todos, e me incomoda profundamente, e deve incomodar a todos. 

Mas essa grande exposição do problema bullyng tem seu preço: a banalização do termo. Tudo vira bullyng. Tudo vira agressão. Tudo vira humilhação. Não é por aí, a prática do bullyng tem características bem definidas. Não é qualquer apelido ou piadinha de mal gosto que é bullyng, e noto que muitas pessoas têm confundido as coisas.

Aquela história do politicamente correto, que é horrível e tinha dado uma sumida, voltou com tudo. O politicamente correto é chato, é ranzinza, é quase um atestado de falta do senso de humor. O bullyng não é só chato como é criminoso, humilhante, e um atestado de humor burro e desnecessário.

O bullyng se caracteriza por ter uma considerável diferença de poder entre o agressor e o agredido, sendo agressão física ou psicológica. O comportamento é repetitivo, vira cotidiano, e parte de uma figura que geralmente é aquele valentão da turma, ajudado por um ou dois e assistido por uma platéia passiva, que não interfere na ação.

A banalização do termo traz junto comentários do tipo "Ah, isso tinha no meu tempo e não dava nada, hoje tem muita frescura", "No meu tempo isso se resolvia na porrada, não tinha essa de psicólogo". Claro, isso tinha no tempo deles. E não dava nada? Dava, o bullyng é o mesmo, mas agora tem nome. E quando se resolve na porrada, foge ao conceito de desequilíbrio de poder, pois a vítima de bullyng não tem capacidade física ou psicológica de reagir.

Olha porque incomoda tanto: