Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 9 de março de 2015

Filme de Segunda 177

Gravidade


Não tive a sorte de assistir ao bem sucedido Gravidade nos cinemas, em uma sala 3D. Dizem se tratar de um experiência e tanto. O filme do diretor Alfonso Cuarón faturou nada menos que sete estatuetas no Oscar de 2014. Tirando o prêmio de melhor diretor ao mexicano, as outras seis categorias são as consideradas técnicas: melhor fotografia, melhor edição, melhore efeitos visuais,  melhor trilha sonora, melhor edição de som e melhor mixagem de som.

Cuáron, que escreveu o roteiro junto com seu filho Jonás Cuarón, busca a complexidade das coisas simples. Ou o caminho inverso, sempre apostando que o menos pode ser mais. Gravidade tem tudo para parecer monótono, mas como um bem executado suspense espacial, fica longe disso.


A trama acompanha Sandra Bullock, no papel da doutora Ryan Stone, e George Clooney, como o astronauta Matt Kowalsky. Os dois integram uma equipe que faz algum tipo de manutenção no telescópio espacial Hubble. Porém, são surpreendidos por destroços de um outro satélite. A tripulação é gravemente atingida e apenas Stone e Kowalsky permanecem vivos, mas sem comunicação com a terra e distantes de alguma base que posse os levar de volta para terra.

Gravidade nos apresenta planos belíssimos do espaço, através de uma fotografia muito astuta de um lugar que é um infinito de escuridão com alguns pontos luminosos. Apostando em um suspense crescente ao longo da luta pela sobrevivência que a doutora Stone trava contra todas as impossibilidades que se apresentam, Cuarón não perde a mão e momento algum, e demostra uma habilidade fascinante para trabalhar dentro de um contexto de efeitos gráficos. Pouco do que se vê em tela não é computação.

Traçando sempre um paralelo com o finito da vida e o infinito do universo, Gavidade não deixa de ser um olhar sobre a solidão. O filme conta com uma precisa Sandra Bullock e um sempre charmoso George Clooney, aqui servindo como um levíssimo alívio cômico.  

Gênero: Ficção científica
Duração: 91 min.
Origem: EUA, Reino Unido
Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón, Jonás Cuarón, Rodrigo Garcia
Distribuidora: Warner Bros
Censura: 12 anos
Ano: 2012


Classificação PoA Geral
- Obra (10)
- Baita Filme (9)
X Bom Filme (7 a 8)
- Bem Bacana (6)
- Meia-boca (5)
- Ruim (3 a 4)
- Péssimo (0 a 2) 

segunda-feira, 2 de março de 2015

Filme de Segunda 176

O Lobo Atrás da Porta


Fico profundamente feliz que, pela segunda semana consecutiva, trago ao Filme de Segunda relato sobre mais um filme brasileiro, autoral e fora do eixo Globo Filmes. Falo de O Lobo Atrás da Porta, estreia do cineasta Fernando Coimbra em longa metragens. Estrelado pelos excelentes Milhem Cortaz, Fabíola Nascimento e Leandra Leal, o roteiro aflora através dos gêneros drama, policial e suspense.

O estopim da trama é apresentado logo na primeira cena, quando a personagem de Fabíola Nascimento vai buscar sua filha de seis ou sete anos na escola e acaba surpreendida com a informação de que uma suposta vizinha já tinha levado a menina, alegando que a mãe, por algum motivo, não poderia pagá-la. Pai, mãe, professora e Rosa (Leandra Leal), que surge como principal suspeita, logo vão parar na delegacia para o início das investigações.


Coimbra amarra toda a trama com muita competência, equilibrando os gêneros e contando a história pelo ponto de vista dos personagens, que depõem separadamente ao delegado vivido por Juliano Cazarré. Portanto, conhecemos versões diferentes sobre os mesmo fatos e, para isso, o diretor usa os flashbacks como recurso, chegando a um resultado final de montagem muito interessante.

Enquanto Cazarré é quase um alívio cômico com seu delegado meio de saco cheio de estar ali, a trinca de protagonistas nos apresenta trabalhos excepcionais de atuação, profundidade e complexidade na criação de seus personagens. O Lobo Atrás da Porta prima pelo realismo, e faz isso com diálogos, mas também valoriza o silêncio. Além de uma fotografia muito adequada do subúrbio do Rio de Janeiro. Todo mérito aos envolvidos por esse trabalho realmente marcante. 

Gênero: Drama, Suspense
Duração: 95 min.
Origem: Brasil
Direção: Fernando Coimbra
Roteiro: Fernando Coimbra
Distribuidora: Imagem Filmes
Censura: 16 anos
Ano: 2013



Classificação PoA Geral
- Obra (10)
- Baita Filme (9)
X Bom Filme (7 a 8)
- Bem Bacana (6)
- Meia-boca (5)
- Ruim (3 a 4)
- Péssimo (0 a 2) 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Filme de Segunda 175

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho


No último domingo a Academia premiou com o Oscar de melhor filme estrangeiro o polonês Ida. Também concorreram Relatos Selvagens (Argentina), Leviatã (Rússia), Tangerines (Estônia) e Timbuktu (França/Mauritania). O filme brasileiro Hoje Eu Quero Voltar Sozinho era um dos selecionados, mas acabou não figurando na lista final. 

O longa de Daniel Ribeiro é adaptação do curta-metragem do próprio diretor, de grande sucesso em 2010, chamado Eu não Quero Voltar Sozinho. O filme conta a história do jovem Leonardo (Ghilherme Lobo), deficiente visual que vive sua fase de descobertas na adolescência e busca por independência. Giovana (Tess Amorim), sua amiga inseparável, são seus olhos na escola e no caminho de volta pra casa. As coisas, contudo, parecem mudar com a chegada de um novo aluno à turma, Gabriel (Fabio Audi), que logo torna-se amigo dos dois.


Comparações entre o curta e a versão estendida são inevitáveis, mas um não tira o valor do outro. Daniel Ribeiro nos conta de forma muito delicada e cuidadosa a história de uma primeira paixão. E esse cuidado e essa delicadeza talvez seja os aspectos mais importantes de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. Embora pudesse ter optado pelo caminho de uma trama mais pesada, mais crítica, pelo justificável (e necessário) confronto que sempre é levantar bandeiras, o diretor e roteirista deixa de lado a opção de ser um filme ativista.

De alguma forma é sim ativista, mas justamente pela leveza com que o cineasta conduz a narrativa, ele não tem como função principal chocar uma sociedade ainda conservadora. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho trata de como Leonardo descobre que está apaixonado por Gabriel e como Gabriel descobre que Leonardo está apaixonado por ele, e ainda como a melhor amiga deles lida com isso. Sem nunca sexualizar ou afeminar os personagens, porque o homossexual não precisa ser apenas representado por esteriótipos.

Confesso que acho o curta de 17 minutos melhor executado, mais denso e melhor amarrado. Sem contar que os atores estão alguns anos mais jovens. Mas o longa Hoje Eu Quero Voltar Sozinho mantém o excelente nível, provando que há (muita)  vida inteligente e independente fora do universo das comédias da Globo Filmes. 

Gênero: Drama
Duração: 96 min.
Origem: Brasil
Direção: Daniel Ribeiro
Roteiro: Daniel Ribeiro
Distribuidora: Vitrine Filmes
Censura: 12 anos
Ano: 2014


Classificação PoA Geral
- Obra (10)
- Baita Filme (9)
X Bom Filme (7 a 8)
- Bem Bacana (6)
- Meia-boca (5)
- Ruim (3 a 4)
- Péssimo (0 a 2) 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Filme de Segunda 174

Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância)


O diretor mexicano Alejandro González Iñárritu dificilmente erra. A sua filmografia (21 Gramas, Babel, Biutiful) já é de admirável relevância ao cinema comercial produzido a partir dos anos 2000. Indicado a várias categorias do Oscar, inclusive a de melhor filme, Birdman pode até não ser seu melhor trabalho, mas é certamente o mais ousado. O drama é dotado de humor negro, sugere um grande plano-sequência de quase duas horas e é um exercício refinado de metalinguagem.

O filme segue Riggan Thomson (Michael Keaton) no palco e nos bastidores de um teatro da Broadway, em Nova Iorque, dias antes de estrear a peça em que dirige e atua. Ele aposta todas suas fichas nesse trabalho para retomar o prestígio e o sucesso que tinha há 20 anos, quando viveu no cinema o herói Birdman, em uma exitosa adaptação dos quadrinhos para as telonas. Thomson se sente pressionado e, inseguro, quer provar a todo o custo ser um ator capaz de fazer algo além de um blockbuster.


Quase tudo em Birdman é metalinguagem, ilusão ou provocação. A começar pelo protagonista. Michael Keaton foi o Batman nos filmes de Tim Burton, no início da década de 1990. De lá pra cá nunca mais conseguiu fazer papeis de relevância no cinema. O filme de Iñárritu é um retorno e tanto, trazendo uma atuação realmente marcante e o tornando um dos nomes favoritos ao Oscar de melhor ator. Da mesma forma Edward Norton e Emma Stone, que fazem personagens essenciais para a trama, já frequentaram o universo das adaptações. Norton já foi Hulk, enquanto a linda Stone foi Gwen Stacy em dois filmes do Homem-Aranha.

Birdman lembra muito o ótimo Cisne Negro, sobretudo quando o pressionado Riggan Thomson passa a ter alucinações. O perturbado ator não consegue se livrar da sombra sempre presente do herói do passado, que frequentemente conversa e cobra atitudes como se fosse um alter ego de vida própria. De forma sutil, contudo, o diretor consegue sempre deixar uma dúvida quanto ao que é alucinação e o que é real.

O texto, acompanhado de um trabalho primoroso (e ousado) de montagem, de fotografia, trilha sonora e, claro, de atuações, estabelece um tom crítico à industria hollywoodiana com seus filmes (na opinião de Iñárritu) vazios, mas cheios de explosões, efeitos especiais e atores ruins. Ironicamente, e propositalmente, Birdman surge no auge dos filmes de super-heróis.

Sobre o desfecho, sem spoiler, só posso dizer que cabe mais de uma interpretação. Contudo, todas elas são muito interessante e não diminuem o valor da obra deste baita cineasta mexicano que é o Alejandro González Iñárritu.

Gênero: Drama
Duração: 119 min.
Origem: EUA
Direção: Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Iñárritu, Alexander Dinelaris, Armando Bo, Nicolás Giacobone
Distribuidora: Fox Film Brasil
Censura: 16 anos
Ano: 2014
Classificação PoA Geral
- Obra (10)
X Baita Filme (9)
- Bom Filme (7 a 8)
- Bem Bacana (6)
- Meia-boca (5)
- Ruim (3 a 4)
- Péssimo (0 a 2)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Filme de Segunda 173

Foxcatcher - Uma História Que Chocou O Mundo


É difícil mensurar o tamanho das atuações de Steve Carel, Mark Ruffalo e Channing Tatum em Foxcatcher. Não são trabalhos que primam pela virtuose mas, assim como o filme, primam pela frieza, pela introspecção e pela complexidade. Não à toa, das cinco indicações que recebeu ao Oscar de 2015, uma é de melhor ator (Carel) e outra de ator coadjuvante (Ruffalo). Uma indicação para Tatum também não seria exagero.

O drama dirigido por Bennet Miller (Capote e O Homem Que Mudou O Jogo) narra a história verdadeira que tem seu fim trágico em 1996, nos Estados Unidos. O milionário John du Pont (Carel), um milionário excêntrico, frustrado por não conquistar a admiração da mãe, convida os irmãos Mark Schultz (Channing Tatum) e Dave Schultz (Mark Ruffalo), ambos medalistas olímpicos em luta greco-romana, para integrar um centro de treinamento supercapacitado da modalidade dentro de sua mansão-fazenda Foxcatcher. Os irmãos passam a trabalhar ao lado de du Pont em meio a preparação para as Olimpíadas de 1988.

Tatum, à esquerda, contracena com Carel.

Por se tratar de uma história real, amplamente documentada pela imprensa norte-americana, o climax de Foxcatcher perde muito de sua força. Um sinal que, acertadamente, tanto o diretor quanto os roteiristas E. Max Frye e Dan Futterman não encheram a história de confetes.

Ruffalo, à direita, indicado ao Oscar de melhor ator 
coadjuvante
A narrativa não deixa de ser sombria. Há sempre um clima estranho pairando no ar, e não sabemos nunca ao certo do que se trata. Mas, basicamente, o que conduz esse ar de estranhamento é a relação entre os três protagonistas. Há um du Pont nacionalista, que não mede esforços nem recursos financeiros para conquistar glórias para si, para o país e para o orgulho de sua distante mãe, que considera o a luta greco-romana um esporte menor. Há também um Mark Schultz no auge de sua forma física, mas visivelmente perturbado, desde as primeiras cenas ao lado do irmão Dave, de todos o mais equilibrado, conseguindo manter a vida pessoal e a profissional em aparente harmonia.  

Foxcatcher é muito competente quando consegue deixar evidente toda uma aura de inquietação ao redor dos personagens, permitindo aos atores uma linha de atuação sem exageros e de muita correção. Não é apenas um ótimo trabalho de roteiro e direção, mas também de fotografia, direção de arte e montagem.

Gênero: Drama
Duração: 130 min.
Origem: EUA
Direção: Bennet Miller
Roteiro: E. Max Frye e Dan Futterman
Distribuidora: Sony Pictures
Censura: 12 anos
Ano: 2014


Classificação PoA Geral
- Obra (10)
- Baita Filme (9)
X Bom Filme (7 a 8)
- Bem Bacana (6)
- Meia-boca (5)
- Ruim (3 a 4)
- Péssimo (0 a 2)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Filme de Segunda 172

A Família Bélier


O cinema francês tem um charme especial. A começar pela fotografia, sempre muito marcante, passando pelo idioma, suave e agradável, até chegar nos atores, sempre uma grata surpresa. Nos últimos anos, dramédias competentíssimas produzidas na França têm chegado com força ao circuito comercial brasileiro, são casos como de Intocáveis e Eu, Mamãe e os Meninos, e agora aplica-se A Família Bélier.

O filme do diretor Eric Lartigau conta a história dos inusitados Béliers, moradores da zona rural de uma cidade no interior da França. Administradores de sua pequena fazenda, dos quatro membros, apenas Paula (Louane Emera), a filha mais velha do casal, não é deficiente auditiva. Aos 16 anos, ela é a interprete da família, sendo a interlocutora para traduzir o que diz o noticiário da tv, atender os clientes na barraquinha da família na feira da cidade, negociar com a cooperativa além, claro, de ir à escola e tentar ser uma adolescente normal.


O primeiro ato de A Família Bélier é promissor, apresentando os personagens e deixando evidente que, para Paula, não está sendo nada fácil acumular tantas responsabilidades, sobretudo quando descobre uma talento até então adormecido: cantar. Ainda mais quando surge a oportunidade de ir estudar música em Paris, longe dos pais. Até aqui, o roteiro de Stanislas Carré sustenta a trama e injeta a dose necessária de bom humor para tornar tudo muito agradável.

Porém, no meio do filme as coisas se embolam. Abrem-se algumas subtramas que não são muito bem resolvidas, como a candidatura do pai Rodolphe Bélier (François Damiens) à prefeito da cidade e o romance de Paula com um colega popular da aula de canto. Ao ser mau explorado em cena, o jovem casal acaba não criando química.

A Família Bélier, contudo, deixa a cereja do bolo para o desfecho. O filme se revela uma belíssimo conto sobre o rompimento do cordão umbilical com os pais já na fase da adolescência, mas isso se dá por duas ou três cenas no final do longa, nos fazendo relevar o segundo ato mal resolvido da trama.

Louane Emera, atriz que interpreta a protagonista, é uma jovem cantora, participante da edição francesa do reality show The Voice, de 2013. A artista cresce de forma encantadora na parte final do longa e protagoniza uma das cenas mais emocionantes da história do cinema. Eric Lartigau teve o mérito de dirigir um clímax arrebatador, com Louane interpretando a canção Je vole, de Michel Sardou.

As lágrimas são quase inevitáveis, e o filme é salvo de maneira digna e merecida.

Gênero: Comédia, Drama
Duração: 102 min.
Origem: França
Direção: Eric Lartigau
Roteiro: Stanislas Carré
Distribuidora: Paris Filmes
Censura: 12 anos
Ano: 2014


Classificação PoA Geral
- Obra (10)
- Baita Filme (9)
X Bom Filme (7 a 8)
- Bem Bacana (6)
- Meia-boca (5)
- Ruim (3 a 4)
- Péssimo (0 a 2)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Filme de Segunda 171

Dúvida


Em 2008, John Patrick Shanley arriscou-se pela segunda vez como diretor. Se nos anos 90 seu primeiro trabalho foi a comédia Joe contra o Vulcão, quase 20 anos depois ele volta para adaptar uma peça de sua própria autoria. Dúvida é um drama, com diálogos acentuados, atuações convincentes e um suspense sutil, dosado corretamente pelo autor.

A trama se passa em 1964, e o cenário é a escola católica St. Nicholas, no Bronx novaiorquino, um ano após o assassinato do presidente John Kennedy. A sociedade americana ainda está muito abalada com o fato. O crime chega a ser citado no sermão dominical do Padre Flynn (Philip Seymour Hoffman), no qual o tema principal eram as dúvidas que nos deparamos ao longo da vida. Assim, Shanley demarca um espaço preciso no tempo e aponta o sentimento bucólico que paira sobre aquela comunidade.

Diretora da escola St. Nicholas, a conservadora irmã Aloysius (Meryl Streep) não encara  de forma amistosa o comportamento progressista de Flynn, tampouco a proximidade dele com os alunos. Após um relato da professora James (Amy Adams), uma jovem e inocente freira, Aloysius passa a desconfiar que o padre pudesse ter abusado de um dos alunos. Hierarquicamente inferior ao sacerdote, a diretora passa a questionar e confrontar o personagem de Hoffman.


Dúvida acaba sendo um título adequado e direto. O filme não apresenta ao espectador uma trama hermeticamente fechada, pelo contrário. Baseado nas atuações, o poder da sugestão ganha muita força, afinal não há nenhuma cena que mostre algo claramente, o que existe são diálogos, expressões e alegorias - como o vento, explorado exaustivamente pelo diretor.

Um prova do excelente trabalho de Shanley na condução de seus atores, é a lista dos indicados ao Oscar de 2009. Meryl Streep foi indicada ao prêmio de melhor atriz, Philip Seymour Hoffman ao prêmio de ator coadjuvante enquanto Amy Adams à atriz coadjuvante. De quebra, Viola Davis, com uma rápida e intensa participação, no papel de mãe do menino supostamente abusado, também recebeu indicação de melhor atriz coadjuvante.  Dúvida também foi indicado na categoria de melhor roteiro adaptado.

Gênero: Drama
Duração: 105 min.
Origem: EUA
Direção: John Patrick Shanley
Roteiro: John Patrick Shanley
Distribuidora: Buena Vista Pictures
Censura: 12 anos
Ano: 2008


Classificação PoA Geral
- Obra (10)
- Baita Filme (9)
X Bom Filme (7 a 8)
- Bem Bacana (6)
- Meia-boca (5)
- Ruim (3 a 4)
- Péssimo (0 a 2)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Filme de Segunda 170

Philomena


Em época de premiação do Globo de Ouro e expectativas para os indicados ao Oscar 2015, falo sobre um filme que teve quatro indicações ao prêmio da academia no ano passado. Apesar de Philomena ser um bom drama, o trabalho do diretor Stephen Frears não merecia sair vencedor em nenhuma das categorias.

Philomena Lee (Judi Dench) viveu sua adolescência no convento da Abadia de San Ross, na Irlanda, lugar de educação rígida e conservadora, sobretudo na metade de século 20. Em uma noite livre, com permissão para passear, conhece um rapaz encantador e tem sua primeira relação sexual. O pecado da carne cai sobre si de duas maneiras: além de ter confessado às irmãs do convento que adorou o sexo, ela estava grávida. Como era de praxe no local, a criança era tirada da mãe e vendida para casais americanos.


Após 50 anos de silêncio, segredo e angustia, Philomena decide que é hora de procurar o seu filho roubado. A história da senhora acaba então cruzando a vida de Martin Sixsmith, um jornalista em crise profissional que vê, na busca de Philomena, uma oportunidade de escrever uma grande reportagem de apelo emocional.

Philomena se torna então, quase um road movie, com os dois personagens pegando a estrada e partindo atrás das pistas que levem até o filho da complexa mulher vivida por Judi Dench. Uma católica sempre muito compreensiva com as decisões da Igreja, mesmo que essas decisões tenham um dia tirado dela o seu filho. Por outro lado, o jornalista Sixsmith é um ateu convicto, de uma ironia quase deselegante.

Em todos os aspectos, Philomena sempre vai até determinado ponto e não consegue ultrapassá-lo, o que não o deixa ser mais que apenas um bom filme, que conta uma história real, mas não é capaz de chocar ou emocionar tanto quanto poderia.  

Gênero: Drama
Duração: 98 min.
Origem: EUA, Inglaterra, França
Direção: Stephen Frears
Roteiro: Jeff Pope, Martin Sixsmith, Steve Coogan
Distribuidora: Paris Filmes
Censura: 12 anos
Ano: 2014



Classificação PoA Geral
- Obra (10)
- Baita Filme (9)
X Bom Filme (7 a 8)
- Bem Bacana (6)
- Meia-boca (5)
- Ruim (3 a 4)
- Péssimo (0 a 2)

domingo, 4 de janeiro de 2015

Sobre as vantagens de ser invisível

Neste domingo, assisti pela enésima vez o excelente As Vantagens de Ser Invisível (2012), filme de Stephen Chbosky, curiosamente uma adaptação do livro de sua própria autoria. O longa é um primor, umas das melhores obras que o cinema já produziu sobre ser adolescente.

Lá no dia 29 de outubro de 2012, quando publiquei neste blog o Filme de Segunda 88, justamente sobre As Vantegens de Ser Invisível, eu não tinha entendido tudo. Ao contrário do que escrevi há dois anos, não ignore esse título. Ele faz todo sentido e reproduz exatamente aquilo que o filme e o livro de Chbosky querem nos dizer. 

Não é fácil ser adolescente, nunca foi, nem nunca vai ser. Mas se caso fossemos invisíveis, poderia ser menos difícil, quem sabe... E qual a real vantagem de ser invisível se apenas o somos porque os outros não nos notam? É nessa época em que temos a pressão de ser jovem, e isso significa obrigatoriamente ser feliz, ser descolado, ser aceito em uma tribo, gostar de festas, ter amigos e decidir o que vocês vai ser pelos próximos 60 anos. Como se fosse simples.

Não canso se ver a trajetória de conflitos, traumas, descobertas e de amizade do trio Charlie, Patrick e Sam (Logan Lerman, Ezra Miller e Emma Watson, respectivamente). Esse é um dos filme que levo pra vida, e que sempre me emociona.

Nessa época de feriadão estendido, de muito ócio, achei seria bom começar o ano escrevendo (ou reescrevendo) sobre um filme que faz muito sentido, pelo meno para mim. Serve como uma autocorreção, como um forma de refletir sobre aquilo que julgava ter compreendido e também como votos de um ano novo. Desejo que todos comecem 2015 pelo menos com bons filmes, e que As Vantagens de Ser Invisível seja um deles.


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Filme de Segunda 169

Boyhood - Da Infância à Juventude


O projeto atípico do cineasta Richard Linklater, Boyhood, chega a ter pouco mais de três horas de duração. Quando acabou a sessão, a única coisa que pensei era que poderia passar a noite inteira assistindo aquele filme. O longa metragem, simples, delicado e certeiro, é absolutamente encantador, assim como a filmografia do diretor, mas principalmente se buscarmos referência na trilogia de mesma essência Antes do Amanhecer (1995), Antes do Pôr-do-Sol (2004) e Antes da Meia-noite (2013), que leva o espectador a acompanhar a vida de um jovem casal até a meia idade.

Linklater passou os últimos 12 anos gravando algumas cenas por temporada com o elenco de Boyhood. Aqui o tempo passa de verdade, os atores envelhecem de verdade. A narrativa é contada cronológicamente desde os 5 anos de idade de Mason (o ator Ellar Coltrane), até os 18, quando ingressa na faculdade. A fórmula não é inédita, mas raramente é usada. O elenco também conta com a excelente Patricia Arquette (mãe de Mason), Lorelei Linklater (irmã de Mason no filme e filha do diretor na realidade) e Ethan Hawke (pai das crianças), sempre muito à vontade com os textos de Linklater.


Apesar de haver um protagonista, e o intuito principal seja retratar com realismo e situações cotidianas a passagem da infância para adolescência, até o início da fase adulta, Boyhood é uma grande reflexão sobre a vida de uma forma geral. Sobre a passagem do tempo e como às vezes não nos damos conta que o tempo está passando. Quanto a isso, há uma cena maravilhosa já nos minutos finais, quando Mason arruma suas coisas para ir para faculdade enquanto sua mãe observa e se pergunta sobre o tempo que passou.

Um dos grande méritos do diretor é construir uma trama que é dramática, mas nunca pesada. À periferia do protagonista acontecem inúmeras coisas que, de certa forma, são cotidianas a todos nós, como separações, mudanças de cidade, novas amizades, brigas etc. Tudo tão íntimo, tão próximo ao espectador, mesmo sendo aquele um retrato americanizado da sociedade.


As poucas vezes em que se tira o sorriso no rosto durante Boyhood é para dar lugar às lágrimas nos olhos. Não é difícil, entretanto, que as duas coisas aconteçam juntas. Ainda mais com a trilha sonora competente, sempre marcando bem a época que o filmes está, e o tom documental de acompanhar a vida daqueles personagens.

Fico profundamente feliz por ter tido a oportunidade de assistir essa bela dissertação sobre a vida que é Boyhood

Gênero: Drama
Duração: 165 min.
Origem: EUA
Direção: Richard Linklater
Roteiro: Richard Linklater
Distribuidora: Universal Pictures
Censura: 14 anos
Ano: 2014



Classificação PoA Geral
- Obra (10)
X Baita Filme (9)
- Bom Filme (7 a 8)
- Bem Bacana (6)
- Meia-boca (5)
- Ruim (3 a 4)
- Péssimo (0 a 2)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Filme de Segunda 168

O diretor Jason Reitman gosta de registrar momentos e segmentos. Foi assim com os ótimos Obrigado por Fumar (2005), Juno (2007) e Amor sem Escalas (2009). Todos fotografam com muito cuidado, bom humor e certa profundidade temáticas cotidianas, ainda que com uma visão bastante americanizada. Homens, Mulheres e Filhos talvez seja seu retrato mais ousado, em que tenta reproduzir muito mais que apenas a sociedade americana.

Doentia personagem de Jennifer Garner monitora mensagens e
redes sociais da filha.
Reitman nos apresenta a nós mesmos. Seres conectados a maior parte do tempo, que caminham olhando um pouco pra frente e muito para a tela do smartphone. Que estão sempre próximos, mas também distantes um dos outros. Que se excitam mais com a pornografia abundante da internet que com o toque real. Que buscam atenção e satisfação sexual em perfis anônimos, mas encontram uma dificuldade intangível em conversar e resolver as coisas com seu parceiro. Nesse sentido, Homens, Mulheres e Filhos é vertical e certeiro.

O filme, baseado no romance de Chad Kultgen, roteirizado pelo próprio diretor e também pelo Erin Cressida Wilson, é possivelmente o mais denso da carreira de Reitman, no qual ele usa poucos recursos de comédia como válvula de escape. Na trama, uma rede de famílias de um bairro classe média acaba se inter-relacionando através de seus filhos adolescentes. Todos com problemas muito pontuais, que são causados ou potencializados pela tecnologia.

Homens, Mulheres e Filhos acaba sendo um pot-pourri de histórias, com um fio condutor discreto: o romance entre os personagens de Ansel Elgort e Kaitlyn Dever, ambos muito bem em cena. Destaque também para o papel dramático de Adam Sandler que, assim como todo o elenco, ocupa exatamente o lugar que precisa ocupar.


O longa tem acertos interessantíssimos ao longo da narrativa. Me apego a dois em especial. Primeiro, o recurso gráfico que coloca na tela a representação dos aplicativos e das conversas online que estão sendo feitas pelos personagens. Depois o recurso da sugestão, de deixar muito claro que alguma coisa aconteceu - as cenas de sexo em especial - sem necessariamente precisar mostrar.  

O roteiro flerta o tempo inteiro com metáforas existenciais, sobretudo baseando-se nos pensamentos do astrofísico Carl Sagan. A importância dos nossos problemas e das nossas ações são constantemente questionadas e comparadas com o tamanho do planeta Terra dentro do sistema solar, que fica dentro de uma galáxia, que faz parte de um universo infinito. Basicamente, habitamos um fragmento de poeira cósmica

Jason Reitman entrega ao espectador uma obra interessante do ponto de vista dramático, que é instigante a maior parte do tempo, com trama e personagens atrativos. Contudo, ironicamente (talvez até propositalmente), abre abas demais ao longo da narrativa. Entendo que, apesar de ser um bom filme, Homens, Mulheres e Filhos entrega no final menos daquilo que promete.  

Gênero: Drama
Duração: 119 min.
Origem: EUA
Direção: Jason Reitman
Roteiro: Jason Reitman, Erin Cressida Wilson, Chad Kultgen
Distribuidora: Paramount Pictures
Censura: 16 anos
Ano: 2014


Classificação PoA Geral
- Obra (10)
- Baita Filme (9)
X Bom Filme (7 a 8)
- Bem Bacana (6)
- Meia-boca (5)
- Ruim (3 a 4)
- Péssimo (0 a 2)