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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Participar é essencial

A comunicação e o jornalismo tem uma importância social muito maior do que se mensura. Quem comunica, quer dizer alguma coisa, e quer dizer por algum motivo. Parece tão óbvio, mas aplique essa regra simples à uma mega empresa de comunicação e os efeitos logo são percebidos na sociedade. Grandes empresas fazem negócio, andam conforme a maré das suas finanças e, não raro, ficam com o rabo preso a seus anunciantes.

A maior parcela do mercado da comunicação no Brasil é controlado por 11 famílias, com discurso e interesses similares. É de se presumir que o interesse do cidadão muitas vezes fique de lado no jornalismo dessas empresas. Portanto, vai para o espaço a principal função social dessas entidades.

Uma democracia saudável precisa de pluralidade. Uma comunicação mais democrática, que fuja aos interesses dessas 11 famílias, é essencial para que um dia alcancemos uma consciência política e social mais qualificada e crítica.

A mídia independente é uma alternativa viável. Está aí, cada vez crescendo mais na internet e, em alguns casos, ultrapassando a barreira do WWW. Foi o que aconteceu com o blog Jornalismo B, um espaço de crítica da mídia, de discussões, de fomento da capacidade critica do indivíduo. Em maio de 2010 o blog ganhou uma versão impressa, quinzenal, distribuída gratuitamente em Porto Alegre.

Sustentado pelos seus assinantes, que recebem o jornal em casa, em qualquer lugar do Brasil, o Jornalismo B necessita crescer, e foi no financiamento coletivo e voluntário que Alexandre Haubrich, editor do blog e do jornal, encontrou uma solução honesta e transparente.

Através do site Catarse é possível contribuir para que o Jornalismo B funcione a plenas condições em 2012. O prazo vai até março e o objetivo é alcançar R$13.500.

Jornalismo B Impresso from Alexandre Haubrich on Vimeo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Prática jornalistica: cara de pau.

Reproduzo a seguir texto de Alexandre Haubrich, publicado no blog Jornalismo B, dia 13 de setembro.


Grupo RBS se diz sob censura, mas protege funcionário censor

Acompanhem o raciocínio. Comecemos pela notícia:
Sexta-feira, 2 de setembro de 2011. Chamada na capa da Zero Hora anuncia: “CENSURA – Justiça proíbe menção a nome de vereador – Veículos da RBS não podem citar envolvido na Farra das Diárias”. Na página 12, a matéria explica: “A decisão atinge todas as mídias (do Grupo RBS) e pode resultar em multa diária de R$ 1 mil. (…) Em agosto do ano passado, o Grupo RBS e o Fantástico, da Rede Globo, apresentaram a série de reportagens de Giovani Grizotti. O material revelou como vereadores utilizavam diárias para viagens turísticas”.
No dia seguinte, nova chamada na capa: “Entidades repudiam censura à RBS”. Na matéria, cerca de meia página, uma série de entidades realmente “repudiando censura à RBS”. Em 7 de setembro, quarta-feira, não há chamada de capa, mas está lá uma nova matéria, novamente meia página: “Veto à imprensa – Justiça de Torres mantém censura a veículos da RBS – Mais duas entidades divulgaram nota lamentando decisão do tribunal”.
Finalmente na sexta-feira, 9, mais uma chamada na capa: “Censura à RBS chama atenção até no Exterior”. A matéria, nas páginas 4 e 5 (as “nobres” de Zero Hora) busca mostrar como o caso é absurdo, “insólito”. O título da matéria, em letras garrafais, é “O peso da censura”. O repórter é Humberto Trezzi. O argumento para classificar o caso como “insólito”: “A RBS adotou as medidas cabíveis em nome de um valor constitucional – a liberdade de expressão. Mesmo que o parlamentar não fosse rei, isso não invalida o direito à mídia de nominá-lo. A Constituição, em seus artigos 5º e 220, veda a censura prévia e confirma que é livre a manifestação do pensamento”.
Corta.
Sábado, 14 de março de 2009. Post do Jornalismo B: “o jornalista Wladymir Ungaretti, dono do blog Ponto de Vista, está sendo processado pelo repórter fotográfico da Zero Hora Ronaldo Bernardi. Os motivos do processo são os posts daquele blog que chamam Bernardi, sempre usando o apelido ‘Fotonaldo’, de cascateiro” (…) O processo claramente tem o único intuito de fazer calar. É, portanto, autoritário, centralizador de opinião, ditatorial”.
Os termos do processo são semelhantes ao do caso RBS x vereador de Torres. Algumas diferenças, porém, são marcantes: além de não poder citar o nome de Ronaldo Bernardi em seu blog (igualmente sujeito à multa), Ungaretti também teve que retirar do ar as menções ao funcionário da RBS. Além disso, é claro que uma empresa do tamanho do Grupo RBS não tem qualquer dificuldade em arcar com os custos do processo ou mesmo com possíveis multas. Ungaretti, como todo blogueiro processado – e são muitos, boa parte deles acossados por outras empresas de mídia –, vê seu trabalho estrangulado pela censura e pelo golpe financeiro. O Ponto de Vista segue sob censura, há mais de dois anos e meio. Os processos seguem tramitando.
Em nenhum momento, desde o início de 2009, o Grupo RBS divulgou o caso ou se preocupou em dissuadir seu funcionário de praticar censura contra um veículo de mídia – o blog Ponto de Vista. Ainda que saiba muito bem que “a Constituição, em seus artigos 5º e 220, veda a censura prévia e confirma que é livre a manifestação do pensamento”, a RBS não “adotou as medidas cabíveis em nome de um valor constitucional – a liberdade de expressão”. E as medidas cabíveis, nesse caso, eram – são – muito mais acessíveis ao Grupo. Só dependem da própria RBS.
A cara de pau é hoje uma das práticas jornalísticas mais comuns nas empresas de comunicação.
Siga www.twitter.com/jornalismob e www.twitter.com/alexhaubrich

sábado, 18 de junho de 2011

Marcha da Liberdade em Porto Alegre

Texto e fotos de Alexandre Haubrich, jornalista e editor do blog Jornalismo B


Cerca de quinhentas pessoas se reuniram neste sábado para defender o direito a ser. Ser mulher, ser homem, ser homossexual, ser usuário de maconha, ser estudante, ser cidadão. O direito a ser respeitado, aceito, ouvido. O direito a ter direitos. O tempo cinza limitou-se ao céu de Porto Alegre. O chão, onde estavam os pés dos manifestantes, esteve colorido com os infinitos tons da liberdade. Até a chuva esperou a dispersão dos indignados para jogar alguns pingos, e mesmo assim logo se arrependeu.

Andando, sentando, pulando e correndo, quinhentos jovens de todas as idades marcharam do parque da Redenção até a antiga prefeitura de Porto Alegre, gritando por liberdade, por redenção. Enquanto a Globo dizia que “a polícia não conseguiu garantir o direito de ir e vir dos motoristas", os jovens porto-alegrenses criavam ecos e faziam eco a movimentos semelhantes que aconteciam ao mesmo tempo por todo o Brasil, e gritavam que “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!”, e que “o povo não esquece, abaixo a RBS!”.

O povo gritou, nas gargantas ou nos cartazes – assim como os muros, mídias do povo – que está “lutando por liberdade pra construir uma nova sociedade”, que faz “apologia ao debate”, e que “ideias são à prova de balas”. E perguntou: “Se reprimir é o certo, por que tá tudo errado?". 

Partidos e não-partidos, entidades e não-entidades, pessoas. Muitas das principais pautas de todas as juventudes brasileiras estiveram representadas na Marcha da Liberdade em Porto Alegre. Não houve qualquer conflito com polícia ou população. Pelo caminho, muitos transeuntes sacavam celulares e máquinas fotográficas e registravam a versão brasileira dos movimentos de indignados que começam a acontecer pelo mundo. Muitos outros aderiam à caminhada sem convite direto: o melhor convite foi a própria pauta de reivindicações. Buzinas pelo caminho de ruas parcialmente tomadas por gente? Apenas saudações simpáticas à batucada e aos passos que seguiram rumo à democracia real. Já.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Repercussão do post "Casa ou quartel?"

Foi publicada  essa semana em vários blogs de Porto Alegre a reportagem Casa ou quartel?, de Alexandre Haubrich, que fala do impasse instaurado entre reitoria da UFRGS e a Casa do Estudante da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Haubrich, através do e-mail que reproduzo na sequência, comunicou aos editores dos blogs que colaboraram publicando a matéria a importante repercussão da reportagem:

Novidades Casa do Estudante UFRGS
Olá pessoal
Envio esse email aos que publicaram o texto que produzi sobre a situação na Casa do Estudante da UFRGS, e para alguns outros. Tenho novidades, uma boa e uma ruim.
A novidade boa é que nós, comunicadores independentes, pautamos a Zero Hora. Sim, a partir da repercussão que conseguimos pelos blogs de vocês e pelo Twitter, hoje saiu uma matéria na Zero Hora sobre o assunto. Não sei se a Reitoria, pressionada pelos vossos blogues, chamou a ZH ou se alguém da própria ZH viu o texto e resolveu checar o que estava acontecendo. Fato é que fica claro, pela pouca divulgação que havia antes e por justamente agora ZH resolver tratar do tema, que mais uma vez a mídia independente está conseguindo pautar os veículos hegemônicos. Uma vitória nossa.
A notícia ruim é que, obviamente, a matéria de ZH é totalmente tendenciosa, manipuladora e distorce terrivelmente o que está acontecendo. A impressão que a matéria do Carlos Wagner (o mesmo que cobre sempre o MST) é de que os estudantes querem só beber e andar nus dentro da CEU. Ou "tomar o poder", atropelar a Reitoria.
A consequência disso é que hoje o post que vou escrever para o Jornalismo B será sobre isso, sobre a matéria que ZH fez em parceria com a Reitoria. Vou ver se consigo também uma nota do pessoal da Casa sobre a tal matéria.
Quando estiver pronto envio tudo pra vocês, caso se interessem (seria ótimo) em republicar.
Mais uma vez agradeço, é nesse tipo de trabalho conjunto que vamos virando o jogo.
Abraços

terça-feira, 3 de maio de 2011

Casa ou quartel?

Reitoria da UFRGS tenta empurrar goela abaixo regimento que retira direitos dos moradores
De Alexandre Haubrich, jornalista e editor do Jornalismo B

Moradores reclamam de expulsões arbitrárias e de vigilância excessiva
Os resíduos bolsonarianos chegaram a Casa do Estudante Universitário da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (CEU-UFRGS). Em silêncio, sem ampla divulgação na comunidade acadêmica, a Reitoria da UFRGS caminha para impor um novo regimento na CEU. “Casa” é um conceito que parece um tanto controverso no tal regimento. Ou você, leitor, não pode andar sem camisa dentro de sua casa? E consumir bebidas alcoólicas em casa, você pode? Mesmo que o local onde você mora seja alugado? “Que escândalo!”, urrariam os redatores do novo regimento.
Pois é, os estudantes maiores de idade que moram na Casa do Estudante da UFRGS podem ser impedidos de circular sem camisa ou beber nas dependências. Um moralismo antiquado que chega a ditatorial quando consideramos que nada disso foi – nem a Reitoria tenciona que seja – debatido com os moradores. Se o atual regimento nem existe legalmente – há anos a CEU é organizada através de regras regimentais não formalizadas – a proposta de mudança que a Reitoria tenta emplacar retira direitos até de participação dos estudantes na gestão da Casa. Segundo o blog Megafonadores:
Este novo regimento, além de ter sido elaborado sem a participação dos estudantes, é um retrocesso no que tange a gestão da casa. Se aprovado, a CEU não possuirá um conselho gestor com participação dos moradores. Tirando o direito dos alunos de, de forma representativa, deliberarem sobre questões de sua própria moradia.
Os moradores reclamam também de expulsões arbitrárias e de vigilância excessiva, que, para eles, configura a tentativa de “implementação de uma política de controle e repressão sobre os estudantes que necessitam de políticas de promoção social e não da criminalização e exclusão”. Outra questão prejudicial aos moradores se refere às novas regras para a permanência na Casa após a graduação. Hoje, é permitido que os formados continuem ali por até seis meses, prazo que pode ser reduzido para 60 dias. A política de estímulo à permanência na universidade, defendida pela Reitoria, também seria esvaziada, com o fim da permissão para alunos de pós-graduação morarem na CEU.
Localizada na avenida João Pessoa, uma das principais vias de Porto Alegre, a Casa do Estudante da UFRGS é, atualmente, o lar doce lar de 400 estudantes. Mas a doçura pouco tem a ver com a estrutura oferecida pela universidade. A quantidade de pias e fogões não supre a demanda, há infiltrações no oitavo andar e a segurança contra incêndios é criticada pelos moradores. Além disso, o segundo andar, antes ocupado por moradias, foi transformado em espaço da administração, para departamentos que antes ficavam no prédio da Secretaria de Assistência Estudantil. Essa medida, obviamente, reduz a quantidade de vagas oferecidas para moradia.
Esses e outros problemas estruturais, somados à tentativa de retirada de direitos e de imposição antidemocrática de um novo regimento, levaram os estudantes ao Campus Central da universidade, para protestar e propor um regimento alternativo. Ainda segundo o Megafonadores, “o Secretário de Assistência Estudantil, Edilson Nabarro, resolveu sair para conversar com os estudantes. Recebeu as reivindicações, mas não se comprometeu com nada. Disse não estar impondo esse novo regimento, mas também não quis saber do regimento elaborado e proposto pelos moradores da casa”.
O regimento informalmente em vigor pode ser lido AQUI.
A “proposta” da Reitoria pode ser lida AQUI.
A contra-proposta dos estudantes / moradores pode ser lida AQUI.
Mais informações no blog da CEU.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A República da Farinha – o momento dos grandes partidos políticos brasileiros

Por Alexandre Haubrich, jornalista, editor do blog Jornalismo B (http://twitter.com/jornalismob / http://twitter.com/alexhaubrich)
A atuação dos partidos políticos brasileiros hoje pode ser explicada através da farinha. Já tivemos o Ciclo do Açúcar, o Ciclo do Ouro, o Ciclo do Café. Tivemos até a versão político-institucional mais chique, mais cheia de fricotes, o café-com-leite, assim com hífen e tudo. Pois hoje vivemos o Ciclo da Farinha. De sacos diferentes, mas ainda assim farinha. 
Peguemos os mais encorpados partidos do país e vejamos se a farinha não é o elemento comum entre eles, se não é ela quem norteia os rumos da política nacional. A farinha, unida a doses variáveis de fermento, é a receita geral, ainda que um ou outro mestre-cuca da alta elite culinária prefira a farinha que passarinho não come
O PSDB segue a receita da vovó estrangeira, que vem e volta ao Brasil de acordo com suas conveniências, mas não gosta muito daqui. De qualquer forma, ela está sempre em contato, enviando sua mais nova receita aos filhinhos tucanos, nova receita que é sempre a mesma. Está caduca ou apenas quer fixar bem seus ingredientes na nossa cabeça? Bondosa. Fato é que o contato é sempre através de cartas, para que venha junto seu cheiro de enxofre, tão agradável ao olfato das aves de bico longo que habitam essas paragens. 
A receita do PSDB baseia-se, teoricamente, em fazer o bolo crescer para depois dividir. Mas, cozinheiros amadores que somos, sabemos que em qualquer casa que se preze quem está na cozinha acaba por decidir o quanto quer comer. Se muitos estão ajudando a fazer o bolo, muitos comem, irremediavelmente. Se poucos se fecham a sete chaves na cozinha, fazem um bolo enorme e comem tudo sozinhos. 
Mas não veja no PSDB ou em sua avó estrangeira muita criatividade. Com problemas para manter o peso, os tucanos pouco mais fizeram do que deixar mais light a receita usada pelo seu primo DEM, receita essa criada pela querida vovó deste último, a Dona Arena. Essa rigorosa senhora passou a tal receita para o seu filho, o PFL, que repassou para o DEM. Os passos são mais ou menos semelhantes aos da receita do PSDB, mas, para fazer o bolo como prefere o DEM, bata bastante. O bolo da Dona Arena  também tem um gosto um tanto adstringente: enrola a língua do vivente, dificulta a fala. E é preciso comê-lo com cuidado, sem estardalhaço e com um ritual determinado anteriormente pelo cozinheiro. Caso contrário o cidadão ficará chocado com o que pode acontecer. 
O PT, por sua vez, nunca teve muitas condições financeiras para comer bolo. Comia terra, mas comiam todos. Desde 2001, essa realidade mudou. O PT ascendeu à classe média, e ganhou até o direito a fazer seu próprio bolo. Fez, faz, e tem distribuído os pedaços para mais gente. Mas não deixa mais ninguém entrar na cozinha, e a receita, que pegou emprestada do PSDB, ganhou apenas um pouco mais de açúcar. 
E o PMDB? Bom, esse não sabe cozinhar, mas come o que vier. E pede para repetir.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A Ditadura brasileira ainda viva – a cidadania torturada

Por Alexandre Haubrich, jornalista, editor do blog Jornalismo B (http://jornalismob.wordpress.com / http://twitter.com/jornalismob / http://twitter.com/alexhaubrich)

Aos quatro anos de idade, Edson Teles entrou em um prédio na Rua Tutóia, no bairro do Paraíso, em São Paulo para encontrar os pais, que não via há alguns dias. Simpáticos nomes o da rua e o do bairro. Edson ouviu a voz da mãe chamando seu nome, mas, quando se virou, não reconheceu o rosto e o corpo que portavam aquela voz. Em seguida, encontrou o pai, em outra sala, sentado em uma cadeira aparentemente normal para uma criança. Mas havia cintas de couro nos braços da cadeira. Era 1972, e Edson visitava os pais no DOI-CODI, centro da repressão da Ditadura Militar brasileira. “Meu filho perguntou 'por que o pai é verde?' e minha filha perguntou por que eu estava azul”, contou anos atrás a mãe de Edson, Maria Amélia de Almeida Teles.
Na última semana, em um seminário em Porto Alegre, Edson desabafou: “me envergonho de ser brasileiro. Oferecemos o Brasil para ser paraíso dos torturadores. Se torturarem em nome do Estado, aqui são anistiados”. E Edson e sua irmã Janaína não são um caso raro. Muitas crianças viram seus pais serem torturados pelo Estado brasileiro que, entre 1964 e 1985, impôs a seus cidadãos o fim da cidadania e de qualquer possibilidade de dignidade. Socos e pontapés eram carinhos. A violência vinha através de choques elétricos por todo o corpo, afogamentos, fuzilamentos simulados. Homens e mulheres, muitas vezes nus, eram pendurados em paus-de-arara, humilhados de todas as formas, reduzidos a nada. E se Edson e Janaína não são um caso raro, e tampouco a tortura a que foram submetidos seus pais foi um caso raro, também não foi a tortura a única forma pela qual cidadãos brasileiros foram agredidos por seu próprio Estado.
Assassinatos e sequestros também eram comuns. Sim, hoje ainda são. Mas, naqueles anos, quem cometia esses crimes era o Estado, e os cometia como Estado, não apenas através de indivíduos que corrompiam as instituições. O Estado e seus agentes eram os criminosos, os assassinos, sequestradores, torturadores. Brasil nunca mais. Muitos cidadãos brasileiros foram obrigados a fugir do país. Deixaram para trás seu lugar e seus familiares, amigos, colegas. Deixaram para trás toda uma vida para começarem a construir outra longe daqui. 
O silêncio, para os militares e civis que referendaram o Golpe de 1964, era a causa pela qual lutavam. Gritos? Permitidos apenas nas salas de tortura, e apenas gritos de dor. Parte significativa da imprensa apoiou a Ditadura de seu início até as portas de seu fim, quando percebeu que, ou abandonava o moribundo, ou morreria junto. A outra parte da imprensa, porém, a parte séria, viu muitos de seus representantes torturados, desaparecidos ou acuados. O fetiche do silêncio. 
Derrubada a democracia que se aprofundava no governo João Goulart, os golpistas não queriam mais saber de política, apenas de poder. Um professor falando sobre política em aula poderia ser denunciado por um aluno como terrorista. A mesma coisa em conversas de bar ou de qualquer lugar. O risco de tortura, assassinato ou “desaparecimento” sempre iminente. Se antes a política já era afastada do povo, em 64 o Estado tirou do povo o direito de se aproximar da política. 
Com a chamada “abertura democrática” da década de 1980, não acabou-se verdadeiramente com a Ditadura. Até hoje suas sobras contaminam a vida dos brasileiros. A herança da Idade das Trevas tupiniquim está no autoritarismo e na violência policial, na despolitização popular, na agressividade da direita, na ignorância, no conservadorismo moral preconceituoso, racista, machista e homofóbico. Esses resquícios sobrevivem também no imaginário demente de alguns políticos e alguns militares que anseiam pela reinstitucionalização de todos esses absurdos. 
Continuam dominando importantes setores do país as pessoas que financiaram e apoiaram de diversas formas a Ditadura Militar. Grandes empresários, destacados políticos, graduados militares. Os donos da comunicação brasileira também entram nesse bolo. É por tudo isso que, enquanto nossos países vizinhos agem para limpar a sujeira deixada por suas respectivas ditaduras – sem varrer essa sujeira para baixo do tapete –, aqui o silêncio segue imposto.
 É para punir os responsáveis pelo massacre da cidadania brasileira que é necessário revisar a Lei da Anistia, assinada em 1979, que, ao mesmo tempo em que beneficiou quem lutava por um Estado democrático, absolveu automaticamente as pessoas que, em nome do Estado brasileiro, cometeram todos os tipos de crime. A tortura e o assassinato em nome do Estado foram permitidos, o que configura uma arbitrariedade e um desrespeito aos brasileiros representados por esse Estado. Os cidadãos que lutaram contra a Ditadura Militar já foram fortemente punidos das mais diversas formas ainda durante aquele período. Os representantes dessa Ditadura, não. Além disso, a Lei da Anistia foi aprovada pelos opositores ao regime com uma arma na cabeça. Da mesma forma que obtinham confissões através da tortura, os governantes de então impuseram sua própria imunidade como condição para deixarem o povo brasileiro ser re-empoderado minimamente. 
A abertura imediata de todos os arquivos da Ditadura Militar e a ampla divulgação de seu conteúdo, assim como o trabalho de resgate histórico do que vivemos, é outra obrigação do Estado brasileiro. Os cidadãos têm o direito de conhecer sua própria história, a história de seu país. Se o Estado é uma instituição da sociedade, e esta é formada pelo conjunto dos indivíduos, o Estado somos nós, e nós temos o direito de conhecer a verdade e o dever de lutar por esse direito. Para que não corramos o risco de retornar àquela situação de terror precisamos saber detalhadamente o que nos levou a ela o que a manteve por tanto tempo. Só assim, com a punição dos gerentes da nossa Idade das Trevas e com o direito à verdade, poderemos realmente encarar de frente as heranças daquele tempo que ainda nos assombram.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

DCE/UFRGS - Eleição 2010 - Resultado final

Chapa 3 vence legitimado por grande votação
Alexandre Haubrich*
Quase 20% dos estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul votaram, apesar de diversas tentativas de golpe por parte da situação, e legitimaram as eleições para o Diretório Central de Estudantes da UFRGS. Com dois mil e trezentos votos, a Chapa 3 – Oposição Unificada foi a grande vencedora. A situação, representada pela Chapa 1, ficou em segundo lugar, com 1300 votos, e a Chapa 2 teve 850 votos.
O último dia de votações não teve os problemas de agressão de segunda-feira, mas começou com nova tentativa de destruir o processo eleitoral democrático. Email recebido por esse repórter às 4h20min da madrugada, enviado pela lista da Comissão Eleitoral – ou seja, para todos os alunos – dizia que a eleição estava suspensa por decisão da Comissão Eleitoral.
O email afirmava que o motivo era a perda de controle da Comissão sobre o processo, por atitudes da Reitoria, da Secretaria de Assistência Estudantil e da Chapa 3, que teria agredido o presidente e o tesoureiro da Comissão Eleitoral, Adrio de Oliveira Dias e Cleber Machado. Vídeos das ocasiões não mostram essas agressões, mas Cleber Machado aparece rasgando atas de votação da Faculdade de Educação.
O email foi enviado também aos Diretores de Unidade onde estavam ocorrendo as votações, solicitando o fechamento das urnas. Adrio e Leonardo Pereira, que assinam o email, porém, não foram atendidos. Eles já não eram mais reconhecidos como integrantes da Comissão Eleitoral por ela própria, pelos estudantes e pelos Diretores, por terem se manifestado publicamente a favor de uma das chapas (1) ou contrariamente a outra (3). Kátia Azambuja assumiu, então, como presidente da Comissão Eleitoral, e deu prosseguimento normal ao processo.
Rodolfo Mohr, integrante da Chapa 3, comemora: “Foi a grande vitória da democracia, daqueles que ousam lutar pra mudar nossa universidade, nosso mundo. Foi uma vitória contra os filhos da pior direita do RS, que não têm apego às liberdades democráticas, à garantia mínima de respeitar o direito de seus colegas, do povo. Foi a mostra de que a UFRGS não tolera a turma da Yeda, não tolera esse tipo de prática, uma verdadeira vitória da esquerda, dos estudantes”.

*Jornalista, editor do blog Jornalismo B

terça-feira, 23 de novembro de 2010

DCE/UFRGS - Eleição 2010

Chapa da situação ameaça processo eleitoral com seguidas tentativas de impugnação e intimidação
Alexandre Haubrich*
Se a campanha presidencial de 2010 foi marcada pela baixaria e por polêmicas, a eleição para o Diretório Central dos Estudantes de uma das maiores universidades do sul do país vai no mesmo caminho. Depois de sofrer sucessivas denúncias de corrupção, ameaçar impugnar a candidatura da principal chapa de oposição, a Chapa 3 – UFRGS Pública e Popular, a gestão atual do DCE da Universidade Federal do Rio Grande do Sul tenta agora impugnar o próprio pleito. As eleições começaram nesta segunda-feira, com votações nos dias 22, 23 e 24.
Circulou na imprensa local a informação de que, em uma reunião na noite da última sexta-feira, a Comissão Eleitoral teria aprovado a impugnação da Chapa 3, pois alguns de seus membros teriam agredido o presidente da Comissão, Adrio de Oliveria Dias, durante manifestação na manhã de sexta.
Adrio afirma que foi agredido por integrantes da Chapa 3 com socos e pontapés, tendo registrado, inclusive, Boletim de Ocorrência. Porém, os vídeos da manifestação mostram a saída do estudante com grande tensão, mas sem agressões. O estudante de jornalismo e integrante da Chapa 3, Rodolfo Mohr, um dos acusados de agredir Adrio, garante que o presidente da Comissão não foi agredido, apesar de ter passado hostilizando os manifestantes.
Mais tarde, confirmou-se que a impugnação na verdade não chegou a oficializar-se. Porém, a imprensa local já havia divulgado amplamente a “notícia”, contribuindo para causar confusão entre os estudantes aptos a votar.

Votação começa com confusões, agressões e novas ameaças
O primeiro dia de votação foi tenso. Qualquer pessoa estranha nos entornos das urnas causava expectativa. Mesmo assim, uma grande quantidade de estudantes já compareceu às urnas. Para votar, é preciso apenas o cartão da UFRGS e a senha correspondente.
Dois episódios, porém, tentaram macular o ambiente democrático buscado por três das chapas, a 2, a 3 e a 4. Ligados à Chapa 1, os ex integrantes da Comissão Eleitoral Adrio de Oliveria Dias, Claudia Thompson e Leonardo Pereira teriam ido ao Ministério Público tentar impugnar a eleição. Nenhuma notificação foi recebida por qualquer das chapas concorrentes.
Na urna em frente à Faculdade de Educação (FACED), outro problema. Segundo Nina Becker, estudante de Ciências Sociais e apoiadora da Chapa 3, uma integrante desta mesma chapa foi agredida com um soco por Cleber A. G. Machado, integrante da Comissão Eleitoral indicado pelo Diretório Acadêmico da Computação, ligado à situação. Além disso, ainda de acordo com Nina Becker, Cleber teria quebrado um vidro e rasgado as atas de votação, antes de sair do local preso pela segurança da UFRGS.

Formação da Comissão Eleitoral cercada de manobras
No dia 16 de setembro, os Centros Acadêmicos, responsáveis por garantir as eleições, formaram uma Comissão Eleitoral, que lançou um edital. Duas semanas depois, o DCE chamou nova reunião, na qual a proposta era retificar o calendário acertado no dia 16. Com a presença de 26 CA’s, o DCE se retirou da reunião, para, uma semana mais tarde, lançar um novo edital. Esse edital trazia novas regras, que subiriam os custos da campanha e dificultariam a inscrição de chapas maiores, como a 3. Por exemplo, a necessidade da presença de todos os integrantes das chapas no momento da inscrição e a obrigação de registrar todos os documentos de identidade dos apoiadores em cartório.
Mas o ponto mais polêmico defendido pela atual gestão do DCE era a votação pelo site da UFRGS, considerada insegura pela própria Reitoria da Universidade, por permitir que qualquer estudante votasse com a senha de outro. Além disso, o Estatuto do DCE prevê que o votante precisa apresentar um documento e assinar lista presencial. Caso a eleição ocorresse via internet, o temor é de que qualquer estudante vinculado a UFRGS poderia recorrer a Justiça e impugnar o pleito. Um acordo, por fim, uniu as duas comissões eleitorais e definiu a eleição por urna eletrônica, como na disputa pelo cargo de reitor.
A gestão do DCE, porém, mudou de ideia, e voltou a defender que o processo se realizasse via internet. A Reitoria da Universidade se demorava a liberar as listas de estudantes matriculados, impreterível para que a eleição fosse realizada, e uma manifestação foi convocada pela Chapa 3 para a última sexta-feira, na Secretaria de Atendimento Estudantil. O protesto reuniu cerca de 100 estudantes. Confirmada, enfim, a liberação das listas, Adrio, citado como um dos obstáculos para o processo eleitoral em um relatório que os estudantes pretendiam entregar, saiu pelo meio dos manifestantes.

Impugnação não foi comunicada oficialmente
Já no sábado, Rodolfo afirmava que a notícia da impugnação da candidatura poderia ser apenas um factóide, apenas mais uma manobra. A medida não foi comunicada oficialmente a Chapa 3, foi apenas vazada para a imprensa local. Para Rodolfo, seria mais uma forma de confundir os estudantes. “Mais uma” porque, no site da Comissão Eleitoral, os números das chapas 2 e 3 estão invertidos, segundo Rodolfo, deliberadamente.
Iur Priebe de Souza, um dos coordenadores da campanha da Chapa 2, critica as atitudes da Comissão Eleitoral e da atual gestão: “Estão querendo impugnar uma chapa por fatos que nem foram apurados. Isso é um abuso. Essa judicialização do processo é ruim para os estudantes. Precisam ganhar com programas e projetos, é isso o que tem que ser discutido”, afirma.

Gestão marcada por acusações de corrupção
No meio do ano, o advogado da atual gestão do DCE, Regis Coimbra, denunciou apropriação indébita de R$ 5 mil da entidade, pelo presidente Renan Pretto e o diretor de Relações Institucionais, Marcel van Haten. A investigação dos Centros e Diretórios Acadêmicos que se seguiu à denúncia apontou ainda outras irregularidades, como o favorecimento de amigos e familiares dos membros da gestão e remuneração desses mesmos membros, o que é vedado pelo Estatuto do DCE.
*Alexandre Haubrich é jornalista, editor do blog Jornalismo B