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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Em série de reportagens, DCM investiga sonegação de impostos da Rede Globo

Em seu terceiro projeto financiado por colaboradores através de crowdfunding, o Diário do Centro do Mundo começou a publicar em 15 de novembro a série de reportagens sobre o processo de investigação de sonegação de impostos da Globo. Em 2007 o processo, referente a compra dos direitos de transmissão da Copa de 2002, desapareceu dos arquivos da Receita Federal e hoje circula no submundo.

A campanha de financiamento colaborativo no Catarse alcançou o valor de 48,2 mil reais. O repórter Joaquim de Carvalho é quem está apurando os fatos e, inclusive, já teve acesso ao processo original. No final da série de reportagens, o DCM também vai lançar um material em audiovisual, tal qual o documentário sobre o "Helicoca".

No portal, já é possível acessar a primeira matéria, assim como a segunda reportagem da série, publicada dia 25. 

Reportagem traz imagem do processo original. Foto: DCM


Nova campanha

O DCM já está em nova campanha para angariar fundos para uma grande reportagem sobre a crise da água em São Paulo. O portal, através de crowdfunding no Catarse busca a quantia de 25 mil reais até o final do mês de dezembro.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

“Detestaria ser atendido por um médico negro”: o racismo de um professor federal e as cotas

Por Marcos Sacramento, em Diário do Centro do Mundo, 06/11/2014

Professor Manoel Luiz Malaguti, acusado de
racismo por alunos da Ufes. FOTO:
Fernando Madeira.
Estudantes da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) denunciaram um professor por manifestar racismo durante uma aula da turma do 2º período do curso de Ciências Sociais.

Professor do Departamento de Economia, Manoel Luiz Malaguti cravou que “o nível da educação está tão baixo que o professor não precisa se qualificar mais para dar aula, já que a maioria dos cotistas são negros, pobres, sem cultura e sem leitura, são analfabetos funcionais”.

Ainda afirmou que “detestaria ser atendido por um médico ou advogado negro”. Um dos que presenciaram a explanação racista foi João Victor Santos, de 20 anos, cotista pelos critérios de raça e renda.

“Ele foi questionado por um aluno sobre o valor do trabalho de um professor, se era justo, e aproveitou a deixa para falar de educação. Ele aproveitou para fazer uma crítica ao sistema e falar que a ingressão de cotistas na universidade diminuiu o nível da universidade”, disse João Victor.

O discurso durou aproximadamente uma hora e foi concluído com a afirmação de que ele “detestaria ser atendido por um médico ou advogado negro”. No começo da aula havia cerca de 20 pessoas, mas à medida que o professor falava os alunos foram se retirando, alguns nervosos e chorando.

Os estudantes registraram uma queixa na ouvidoria da universidade e fizeram uma manifestação exigindo punição.

Primeiro desembargador negro do Espírito Santo, Willian Silva ofereceu representação criminal ao Ministério Público Federal. “Sinto-me com a dignidade e o decoro ofendidos na condição de jurista negro, proveniente de família pobre, advogado atuante por vários anos antes do ingresso na carreira da magistratura, e hoje o primeiro desembargador negro capixaba”, falou.

Doutor em Teoria Econômica pela Universidade de Picardie, na França, Malaguti é professor da Ufes desde 1995. Em entrevista ao portal Gazeta Online, ele se defendeu.

“No meio de uma discussão sobre cotas e o sistema educacional, eu coloquei que se eu tivesse que escolher entre dois médicos, um branco e um negro, com o mesmo currículo, eu escolheria o branco. Por que que eu escolheria o branco? Os negros, em média, vêm de sociedades, de comunidades menos privilegiadas, para a gente não usar um termo mais forte, e nesse sentido eles não têm uma socialização primária na família que os tornem receptivos aos trâmites da universidade, à forma de atuação da universidade, aos objetivos da universidade. Eles têm muito mais dificuldades para acompanhar determinadas exposições. Eu não acho que é uma visão preconceituosa, acho que é bastante realista”, disse.

“Então eu dei o exemplo do médico, mas não nesses termos que eu detestaria, nunca falaria algo parecido. Eu diria simplesmente e reafirmo que dois médicos com o mesmo currículo, com a mesma experiência, só que um negro e um branco, em função da possibilidade estatística desse médico branco ter tido uma formação mais preciosa, mais cultivada, eu escolheria um médico branco. Mas como um exemplo do que a sociedade faz.”

Pausa para tomar ar.

O discurso é ainda mais pérfido por vir do servidor de uma instituição de ensino pública. A opinião de Malaguti mostra que o ingresso na universidade é só uma das muitas barreiras que os alunos cotistas enfrentam no decorrer do curso.

João Victor participa de um grupo que pesquisa o preconceito sofrido por cotistas na Ufes. Ele disse que há relatos de professores que dividem a turma entre não cotistas e cotistas, chegando ao absurdo de dar aulas em dias diferentes para cada grupo, e lembra que há outras formas de discriminação mais difíceis de detectar. É comum, por exemplo, acontecer confraternizações entre os alunos e os cotistas não serem convidados.

A Ufes passou a adotar o sistema de cotas sociais em 2008 e desde 2013 adota também as cotas raciais.

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Leia também:

sábado, 25 de outubro de 2014

A técnica do antijornalismo e a resposta da Presidente Dilma

Em Vi O Mundo, o pesquisador que estudou o maior fenômeno de antijornalismo do Brasil. Artigo interessante para entender um pouco da prática jornalística da revista Veja. Já o portal de notícias Pragmatismo Político destaca: Tribunal Superior Eleitoral afirma que capa da revista Veja é propaganda eleitoral irregular e está claramente “a favor de uma candidatura em detrimento de outra”.



Indico ainda o texto do editor do Diário do Centro do Mundo. A seguir, na íntegra:

Uma discussão estritamente jornalística sobre o caso Veja

Paulo Nogueira para o DCM, em 25 de iutubro

Capa da mais recente edição de Veja, que teve
seu lançamento antecipado em dois dias 
Vou falar estritamente sobre a técnica jornalística utilizada pela Veja na última edição.

Percebi que é necessário, uma vez que mesmo jornalistas experientes como Ricardo Noblat não compreendem exatamente onde está o problema.

Citei Noblat porque, em sua conta no Twitter, além de em determinada altura do debate de ontem ele informar seus seguidores de que a bateria do celular acabara, ele fez a seguinte indagação.

“Que prova Dilma da reportagem da Veja? Uma gravação? Diria que é falsa. Uma entrevista do doleiro preso?”

Uma das missões do jornalismo é jogar luzes sobre sombras. Noblat jogou ainda mais sombras sobre as sombras já existentes.

Prova é prova. Prova são evidências consideradas irrefutáveis pela Justiça depois de um processo em que as partes defendem sua posição.

Prova não é a palavra de ninguém – gravada, escrita ou dita em público. Porque o ser humano pode dizer qualquer coisa que imagine que vá beneficiá-lo ou prejudicar um opositor.

Imagine que alguém queira destruir moralmente você. Ele afirma que você é pedófilo, por exemplo. Grava um vídeo e coloca no YouTube.

O fato de ele haver falado que você é pedófilo não prova nada, evidentemente. Você o processa. A Justiça vai pedir provas. Se o difamador não as tiver, estará diante de uma encrenca considerável.

O raciocínio acima não vale, infelizmente, para o jornalismo, dada a influência que as empresas de mídia exercem sobre a Justiça no Brasil.

Mas vale em sociedades mais avançadas. O caso clássico, neste capítulo, é o de Paulo Francis.

Acusou diretores da Petrobras de terem contas no exterior. Como as acusações foram feitas em solo americano, no programa Manhattan Connection, os acusados puderam processá-lo nos Estados Unidos.

A Justiça americana pediu provas a Francis. Ele nada tinha. Na iminência de uma indenização à altura das calúnias, Francis se atormentou e morreu do coração.

Na Justiça brasileira, ele certamente se sairia facilmente de um processo. E ainda seria glorificado como mártir da liberdade da expressão.

Ainda que, para voltar à frase de Noblat, uma fita fosse apresentada, isto não valeria rigorosamente nada. De novo: nada.

Imagine, apenas a título de exercício mental, que alguém tivesse prometido ao doleiro preso vantagens no caso de uma vitória de Aécio: dinheiro, pena branda, cobertura discreta em jornais, revistas, telejornais.

Imagine, além disso, que o doleiro de fato acreditasse que uma simples declaração sua daria a presidência a Aécio.

Ele falaria o que quisessem que ele falasse, naturalmente.

No Brasil, situações como a que descrevi podem acontecer.

Nos Estados Unidos, e volto a Paulo Francis, não. Sem provas, não apenas o acusador estaria frito. Também jornais e revistas que reproduzissem suas acusações enfrentariam problemas colossais.

A sociedade tem que ser protegida.

Em meus dias de Abril, meus amigos se lembram, sempre disse que seria simplesmente inimaginável um jornal publicar – sem provas – uma entrevista em que um irmão do presidente fizesse acusações destruidoras.

Esse irmão poderia estar mentindo, por ódio ou motivações pecuniárias. Inventando coisas. Aumentando outras.

Onde muitas pessoas viram um triunfo da Veja, enxerguei desde o princípio uma demonstração da miséria do jornalismo nacional. E da Justiça, porque se ela agisse como deveria ninguém destruiria a reputação de ninguém sem provas.

Tantos anos depois deste caso a que me refiro, nem o jornalismo brasileiro e nem a Justiça evoluíram.

As trapaças estão até nos detalhes. O jornalismo digno manda que você tome cuidados básicos ao publicar acusações. O acusador disse isso ou aquilo. Afirmou. Para manipular leitores, a Veja utiliza outro verbo: revelou. É, jornalisticamente, uma canalhice e um crime.

A Veja sabe que pode publicar o que bem entender porque a Justiça não vai cobrar provas. Como opera em solo brasileiro, e não americano, ainda poderá se declarar mártir da liberdade da expressão, caso seja mesmo processada por Dilma.

Era o que aconteceria com Paulo Francis se não tivesse sido julgado pelas leis americanas.

Nos Estados Unidos, de onde emigrou há 60 anos a então modesta família Civita para fazer fama e fortuna no Brasil, a Veja estaria morta há muito tempo com o tipo de jornalismo que faz.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Jornalismo colaborativo investiga sonegação da Globo



Em julho, o blog O Cafezinho vazou na íntegra o relatório da Receita Federal sobre seu processo administrativo movido contra a Rede Globo. Segundo o relatório, a emissora não pagou os impostos referentes à compra dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de Futebol de 2002, uma transação ardilosa e milionária.

Como de praxe, o caso não ganhou notoriedade.

Porém, o excelente portal Diário do Centro do Mundo quer investigar a fundo essa questão. Afinal, a dívida da Globo pode ultrapassar 1 bilhão de reais, e se trata de dinheiro que deveria estar nos cofres públicos, sendo investido em programas sociais, educação, saúde etc. Contudo, uma reportagem investigativa de tal magnitude e importância, demanda muita logística e, principalmente, muita verba.

Por conta disso, o DCM iniciou uma campanha de crowdfunding no Catarse visando angariar R$ 25 mil nos próximos 30 dias para financiar a reportagem. O experiente jornalista Joaquim de Carvalho será o repórter a investigar e documentar o caso de sonegação de imposto da maior empresa de comunicação do Brasil. No roteiro de viagem estão Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Ilhas Virgens Britânicas. Acessando a página da campanha, está tudo devidamente explicado, inclusive como contribuir com o DCM.

Há pouco mais de um mês o portal fez o mesmo processo de financiamento coletivo para produzir um material investigativo de 25 minutos sobre o helicóptero da família Perrella apreendido com 445 quilos de cocaína. Clicando AQUI é possível assistir à reportagem do DCM.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Dez coisas sobre o debate dos presidenciáveis na Band

Assisti a boa parte do debate com os candidatos a Presidente da República realizado pela TV Bandeirantes na noite de terça-feira, 27. Não foi com aquela atenção necessária, com anotações precisas e fundamentais para escrever qualquer análise mais densa sobre o confronto. Confesso, porém, não ter me surpreendido com nada. Nem com os momentos bons, tampouco com o vários momentos ruins, de enrolação e discurso vazio.

Marina (PSB) pergunta a Dilma (PT). 
Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Quero, portanto, replicar a análise breve e pertinente do jornalista Paulo Nogueira, publicada nesta quarta no portal Diário do Centro do Mundo. Posso até discordar em uma ou duas frases do editor do site, mas concordo, sobretudo, com a essência básica que passa o texto. Confira:

Dez coisas sobre o debate da Band

1) Dilma apanhou de todos os lados. Bateu em Aécio e poupou Marina, que não a poupou.

De uma maneira geral, se defendeu bem, o que mostra que se preparou para a pancadaria generalizada.

2) Aécio foi Aécio e mais três: os jornalistas da Band, José Paulo de Andrade, Boris Casoy e Fabio Panuzio.

As perguntas deles continham invariavelmente críticas a Dilma e oportunidades para Aécio vender seu peixe. Foram torcedores muito mais que jornalistas.

3) Aécio escolheu por onde vai tentar brecar Marina: dizendo que ela é uma “aventura”, um “improviso”.

A verdadeira mudança, segundo ele, é ele mesmo.

4) Aécio vê um Armínio Fraga que só ele vê. Nas  suas considerações finais, Aécio anunciou Fraga como ministro da Economia com o ar triunfal de um técnico que estaria comunicando a aquisição de Messi.

5) Marina mostrou quanto respeita Neca. Os óculos vermelhos com os quais se apresentou no debate chamaram a atenção de todos.

Neca não parece ter apreciado muito. Da plateia, acenou para que Marina os tirasse, e foi obedecida.

6) Marina, como se diz no futebol, está de salto alto, mascarada, por conta das pesquisas.

Parecia pairar acima do bem e do mal, ou pelo menos acima de Dilma e Aécio, ao renegar a polarização PT X PSDB.

7) O Pastor Everaldo não tem noção das coisas. Numa pergunta sobre o futuro da energia, parecia aquele aluno que ao ver uma questão numa prova percebe que não estudou nada. Respondeu com seu repetido bordão sobre o Estado Mínimo, que lhe valeu o apelido de Pastor Neoliberal entre os internautas.

8) Eduardo Jorge, do PV, foi o Rei da Zoeira, com seu vozeirão, seu traje de cantor sertanejo e suas críticas “a tudo isso que está aí”.

“Aquele tio que fuma maconha e pede dinheiro emprestado pra tua avó”, na definição de um internauta no Twitter.

9) Levy Fidelix frustrou os internautas ao deixar de falar no mítico “aerotrem”.

Comparado ao baixinho da Kaiser e ao Senhor Spacely, parecia, como o Pastor Everaldo, perdido no tempo e no espaço.

10) Luciana Genro pode se tornar um bom quadro da esquerda, se for mais pragmática. Sublinhou a semelhança entre o programa econômico de Aécio e de Marina, falou na necessidade de taxar as grandes fortunas e, em seu melhor momento, notou que o jornalista José Paulo de Andrade não entendeu nada dos protestos de junho passado.

Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Líder do Bom Senso F.C. concede entrevista ao DCM

Reprodução Facebook
No último sábado, 19, o Diário do Centro do Mundo publicou uma interessante entrevista com o zagueiro Paulo André, ex-jogador do Corinthians, líder do movimento Bom Senso F.C. O jogador atualmente joga no futebol chinês, na equipe Shanghaï Shenhua. Ao DCM, Paulo André falou sobre as reivindicações do movimento, que busca conquistar melhorias significativas para o esporte no Brasil. Na sequência, reproduzo na íntegra a conversa do jogador com o jornalista Pedro Zambarda de Araújo.

DCM: O que você achou do desempenho da seleção na Copa do Mundo?


PA: Não acho que a seleção fracassou tanto. As pessoas perderam a razão e se deixam levar pela emoção e pelo placar de 7 a 1. Minha visão não mudou por causa da Copa e nem minha críticas. O Brasil, fazendo tudo errado, chegou à semifinal. Algumas informações: 70% dos atletas profissionais ficam desempregados seis meses por ano, clubes grandes acumulam dívidas, dirigentes nunca são punidos, clubes pequenos estão jogados às traças, jogadores entram na justiça do trabalho e podem esperar por até 10 anos pra receber os atrasados, a formação e a capacitação de profissionais é empírica e insuficiente e a média de público nos estádios tem a décima oitava posição no ranking mundial, atrás até de Estados Unidos e Austrália. Se não estamos no fundo do poço, estamos bem próximos dele. E a solução dada pelos dirigentes do futebol brasileiro é trocar a comissão técnica, o coordenador, o médico e o assessor de imprensa da seleção. Tem que ter muita cara de pau, não? Imagine se trilharmos o caminho correto? Seremos imbatíveis.

DCM: Os jogadores têm alguma culpa no estado das coisas no futebol?


PA: Todos nós temos culpa. Os jogadores de futebol refletem a própria sociedade brasileira. Estudaram nas mesmas escolas públicas, tiveram as mesmas poucas oportunidades, não sabem ou não conseguem se posicionar politicamente, têm medo de retaliação e acabam por virar massa de manobra. O mesmo ocorre com o povo.

DCM: Quais são as propostas do Bom Senso F.C. para mudar a gestão da CBF, que tem dirigentes há 40 anos no poder?

PA: O primeiro passo é propor a reforma política. É preciso oxigenar a estrutura de poder. Quem está no poder há décadas já provou que não tem capacidade de conduzir o futebol brasileiro com a excelência que o cargo exige. A CBF, numa tática de guerra conhecida como “teoria da intimidação”, controla seus 47 membros, sendo 20 clubes da série A e 27 federações estaduais. Esse jogo político emperra as medidas técnicas necessárias para o desenvolvimento do esporte no país. É preciso democratizar a CBF já.

DCM: Democratizar a CBF?


PA: A CBF se ampara no artigo 217 da Constituição, inciso I que define que as entidades que administram o esporte no país tem autonomia financeira e estatutária. Esse artigo não permite nenhum tipo de intervenção ou regulação do governo. Ao mesmo tempo, a CBF se utiliza de um bem público que é a seleção brasileira e arrecada mais de R$ 400 milhões por ano. A oportunidade do Congresso Nacional e da presidente está na necessidade de que os grandes clubes de futebol, quebrados, têm pela aprovação da LRFE (Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte). O projeto propõe, entre outras coisas, o parcelamento da divida fiscal dos clubes, mas oculta a isenção da responsabilidade civil e penal dos dirigentes que cometeram irregularidades no período. Exigir dos clubes, em troca pelo parcelamento da dívida fiscal, a democratização da CBF, sem se excluir, é claro, a responsabilidade civil e penal, que venha a ser apurada, dos dirigentes seria um golaço. É para isso que o Bom Senso F.C. está trabalhando atualmente.

DCM: Dilma pode colaborar com essa mudança?

PA: Dilma tem uma única oportunidade de devolver a CBF, e todas as entidades que regem o esporte no país, ao povo brasileiro. Não devemos aprovar a LRFE do jeito que está. O projeto é frágil ao tentar garantir que os clubes estejam realmente em dia com suas obrigações fiscais e, principalmente, trabalhistas. Essa debilidade justifica o desespero dos dirigentes e a pressão da “bancada da bola” para sua rápida aprovação. Uma vez garantido o parcelamento, clubes e CBF voltarão a se blindar e não mais discutirão as mudanças estruturais do esporte. É preciso aproveitar a oportunidade e exigir dos clubes, em contrapartida pelo parcelamento da dívida, a regulação e a democratização do estatuto da CBF, limitando o mandato dos dirigentes a quatro anos com apenas uma recondução, dando voz e direito de voto aos atletas, treinadores, árbitros e todos os demais clubes filiados à entidade. O Congresso Nacional e a Dilma têm amplas condições de democratizar a autoritária e arcaica estrutura do esporte brasileiro.

DCM: Que papel deve ter o estado ou o governo na gestão do futebol brasileiro?

PA: Intervir para democratizar as estruturas de poder, regulando as entidades que administram a CBF, como os Teixeiras, Marins e Del Neros. Governo deve coubir a criação de novos impérios maléficos para o desenvolvimento do esporte brasileiro.

DCM: E o que você acha da corrupção no nível internacional, em entidades como a Fifa?

PA: É preciso lutar contra isso. Mas teremos muito trabalho com a CBF e com a Comembol antes de chegarmos a FIFA (risos).

DCM: O que você achou das Jornadas de Junho e dos protestos anti-Copa?

PA: Achei incrível e participei. E espero que voltem com mais frequência. O país precisa disso. Boa parte dos nossos políticos se esquecem de seu papel e de quem eles deveriam representar de fato. Uma reforma política se faz necessária para melhorar o modelo de representatividade. Apenas 8% dos nossos deputados foram escolhidos de forma direta. Isso é algo que não entra na minha cabeça.

DCM: A reforma que vocês propõem no Bom Senso F.C. inclui a Globo?


PA: Se não temos direito nem de votar e opinar dentro da CBF, imagine dentro da Globo. A Globo é uma empresa que visa o lucro. Ela controla os clubes por causa dos empréstimos e adiantamentos do contrato dos direitos de transmissão. Ela sabe jogar o jogo e está no direito dela de buscar o lucro. E a CBF, que deveria zelar e proteger o nosso futebol, é conivente. Para não ficarem expostos, fingem que o problema não é com eles. Para que os clubes fiquem menos dependentes da emissora, é preciso fechar a torneira, parar de gastar de forma insana, colocar as contas em dia e depois negociar o próximo contrato de TV em melhores condições, abrindo a concorrência. Por isso o Bom Senso luta por um Jogo Limpo Financeiro dentro do futebol, não esse de mentirinha que querem aprovar no Congresso. Sou um sonhador, não me julgue por isso.

DCM: Quais são os bons exemplos internacionais de boa administração do futebol?


Existe na Alemanha, na Inglaterra e na própria França. As Confederações cuidam da Seleção e se preocupam com o futebol nacional, fomentando seu desenvolvimento em todas as dimensões: educação, formação e alto rendimento. Além de investir na responsabilidade social da prática esportiva, como lazer e saúde. Elas são responsáveis por capacitar treinadores, gestores, criar licenças e cursos para profissionalizar cada um dos segmentos citados acima e regulamentar todas as questões que envolvem o esporte no país. Enquanto isso, a Liga, a associação dos clubes, comanda o futebol profissional e seus campeonatos, visando o espetáculo e o lucro. Não é tão difícil de copiar, não é?