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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Filme de Segunda 175

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho


No último domingo a Academia premiou com o Oscar de melhor filme estrangeiro o polonês Ida. Também concorreram Relatos Selvagens (Argentina), Leviatã (Rússia), Tangerines (Estônia) e Timbuktu (França/Mauritania). O filme brasileiro Hoje Eu Quero Voltar Sozinho era um dos selecionados, mas acabou não figurando na lista final. 

O longa de Daniel Ribeiro é adaptação do curta-metragem do próprio diretor, de grande sucesso em 2010, chamado Eu não Quero Voltar Sozinho. O filme conta a história do jovem Leonardo (Ghilherme Lobo), deficiente visual que vive sua fase de descobertas na adolescência e busca por independência. Giovana (Tess Amorim), sua amiga inseparável, são seus olhos na escola e no caminho de volta pra casa. As coisas, contudo, parecem mudar com a chegada de um novo aluno à turma, Gabriel (Fabio Audi), que logo torna-se amigo dos dois.


Comparações entre o curta e a versão estendida são inevitáveis, mas um não tira o valor do outro. Daniel Ribeiro nos conta de forma muito delicada e cuidadosa a história de uma primeira paixão. E esse cuidado e essa delicadeza talvez seja os aspectos mais importantes de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. Embora pudesse ter optado pelo caminho de uma trama mais pesada, mais crítica, pelo justificável (e necessário) confronto que sempre é levantar bandeiras, o diretor e roteirista deixa de lado a opção de ser um filme ativista.

De alguma forma é sim ativista, mas justamente pela leveza com que o cineasta conduz a narrativa, ele não tem como função principal chocar uma sociedade ainda conservadora. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho trata de como Leonardo descobre que está apaixonado por Gabriel e como Gabriel descobre que Leonardo está apaixonado por ele, e ainda como a melhor amiga deles lida com isso. Sem nunca sexualizar ou afeminar os personagens, porque o homossexual não precisa ser apenas representado por esteriótipos.

Confesso que acho o curta de 17 minutos melhor executado, mais denso e melhor amarrado. Sem contar que os atores estão alguns anos mais jovens. Mas o longa Hoje Eu Quero Voltar Sozinho mantém o excelente nível, provando que há (muita)  vida inteligente e independente fora do universo das comédias da Globo Filmes. 

Gênero: Drama
Duração: 96 min.
Origem: Brasil
Direção: Daniel Ribeiro
Roteiro: Daniel Ribeiro
Distribuidora: Vitrine Filmes
Censura: 12 anos
Ano: 2014


Classificação PoA Geral
- Obra (10)
- Baita Filme (9)
X Bom Filme (7 a 8)
- Bem Bacana (6)
- Meia-boca (5)
- Ruim (3 a 4)
- Péssimo (0 a 2) 

sábado, 31 de março de 2012

Bancada religiosa do Acre censura curta metragem

A notícia é velha, de junho de 2011, e o curta metragem em questão é do ano anterior, foi lançado em 2010. Eu não quero voltar sozinho estava dentro do programa Cine Educação, que disponibiliza filmes para escola públicas passarem em sala de aula e debaterem com os alunos. A trama concilia dois tabus, e se passa numa escola, com jovens do ensino médio: a diversidade sexual e deficiência visual.

O filme do diretor e roteirista Daniel Ribeiro é impecável, delicado e sutil. Eu não quero voltar sozinho é muito bem executado em todos os sentidos, e não é por outro motivo que o curta passou vitorioso por diversos festivas.

No Acre, o filme foi passado para uma turma de alunos, no ano passado. Alguns jovens pensaram se tratar do tal kit-homofobia e procuraram os líderes religiosos do local, que por sua vez foram até os políticos protestar. Acabou que o filme foi retirado do programa e o Cine Educação foi vetado no Acre.

Fora a notícia velha, e a velha mania do poder religioso se intrometer nas diversas instâncias do Estado laico, na internet o belo Eu não quero voltar sozinho continua cumprindo seu papel como arte e como quebra de paradigmas.


06/2011 - Carta aberta dos realizadores de Eu não quero voltar sozinho
Queridos amigos e colegas,

No início da semana recebemos a notícia de que a exibição do curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, como parte do programa Cine Educação, havia sido censurada no Acre.

O programa Cine Educação, uma parceria com a Mostra Latino-Americana de Cinema e Direitos Humanos, tem como objetivo "a formação do cidadão a partir da utilização do cinema no processo pedagógico interdisciplinar" e disponibiliza diversos filmes cujos temas englobem os direitos humanos, de modo que professores escolham quais são mais adequados para serem trabalhados em aula.

Na semana passada, no estado do Acre, uma professora escolheu o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho e exibiu-o para seus alunos. Para aqueles que não conhecem, a trama narra a história de Leonardo, um adolescente cego que, ao longo do filme, vai se descobrindo apaixonado por um novo colega de sala.

Alunos presentes na exibição confundiram o curta metragem com o "kit anti-homofobia" e levaram a questão aos líderes religiosos, que mobilizaram políticos da região com o intuíto de proibir o projeto Cine Educação como um todo. Nenhum desses representantes públicos deu-se ao trabalho de ir atrás da verdade e descobrir que se tratava de um programa pedagógico com o intuito de levar o debate sobre direitos humanos para a sala de aula. Mais uma vez no Brasil, a educação perde a batalha contra o poder assustador das bancadas religiosas e conservadoras.

Neste momento, o programa Cine Educação está paralisado. Enquanto isso, os secretários de Educação e de Direitos Humanos do Acre estão articulando com o governador a possibilidade de garantir sua continuidade, enquanto os líderes evangélicos forçam o cancelamento definitivo do programa. Pelo que sabemos, mesmo que o programa seja reativado, o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho será excluído do catálogo e não mais ficará disponível para que professores o utilizem no debate de questões que envolvem algo tão elementar quanto a sexualidade humana e tão importante quanto a deficiência visual. 

De forma arbitrária, em uma república federativa cuja Constituição atesta um Estado laico, a sociedade está sendo privada de promover debates. Como pretendemos que adolescentes consigam respeitar a diversidade e formem-se cidadãos lúcidos, pensantes e ativos se informação, arte e cultura (sem qualquer caráter doutrinário) lhes são negadas?

Eu Não Quero Voltar Sozinho não é um filme proselitista, tampouco ergue bandeiras de nenhuma natureza. É apenas uma obra de ficção amplamente premiada em festivais de cinema no Brasil e no exterior, cujos predicados artísticos e humanos transcendem qualquer crença. Ademais, se assuntos referentes à orientação sexual dos indivíduos e seus respectivos direitos civis estão na pauta do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, por que não debatê-los em sala de aula? Que combate sombrio é esse, que reacende a memória de um obscurantismo Inquisidor?