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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A elite branca que sofre, David?

Em sua coluna, publicada no jornal Zero Hora de terça-feira, 14, o jornalista David Coimbra foi infeliz ao fazer uma leitura do cenário nacional e classificar a luta pela ampliação de direitos civis como um embate entre "Elite Branca versus Negros e Pobres". Segundo a interpretação do colunista, a chamada elite branca "sofre" no Brasil, ainda mais por ser taxada de forma pejorativa por pensadores. Ele ainda estabelece outras lutas entre "o bem e o mal", tais como Racistas x Negros discriminados, Homofóbicos x Homossexuais, Misóginos x Feministas, entre outras categorias.

Com todo respeito ao jornalista da RBS, e ao seu legítimo posicionamento, discordo veementemente do texto. Não desmerecendo sua carreira, tampouco sua experiência de vida. David, na referida crônica, lembra aos leitores: "Então eu, que sempre trabalhei, que trabalhei e muito, o dia todo, todos os dias, que ganho salário, que sou filho de professora e neto de sapateiro, que sempre estudei em colégio público e nunca ocupei cargo público, eu sou da Elite Branca". Por aí começo a entender o posicionamento de alguém que, presumo, anda à margem da real situação da população brasileira, sobretudo a polução de negros e pardos.

Vamos aos dados.

Segundo os dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do IBGE, publicada em janeiro deste ano, um trabalhador negro no Brasil ganha 57,4% do rendimento recebido pelos trabalhadores de cor branca. Em números, uma média salarial de R$ 1.374,79 para os trabalhadores negros contrastando com R$ 2.396,74 mensais para brancos. Na educação, outro estudo do IBGE, de 2012, aponta que 35,8% dos jovens negros ou pardos brasileiros estão no ensino superior. Esse número mais que triplicou desde 2001. Mesmo assim, o percentual ainda está muito aquém da proporção de 65,7% apresentada pelos jovens brancos. Será que é apenas demérito?

Em média, 100 a cada 100 mil jovens com idade entre 19 e 26 anos morreram de forma violenta no Brasil em 2012. É o que mostra o Mapa da Violência 2014, estudo que visa compreender o panorama da evolução da violência dirigida contra os jovens no período entre 1980 e 2012. O estudo mostra que morreram, proporcionalmente, 146,5% mais negros do que brancos no país, em 2012. É considerada morte violenta a resultante de homicídios, suicídios ou acidentes de transporte. Entre 2002 e 2012, por exemplo, o número de homicídios de jovens brancos caiu 32,3% e o dos jovens negros aumentou 32,4%.

O sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador da Área de Estudos da Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências, em matéria da EBC, afirma que essa seletividade foi construída por diversos mecanismos, como o desenvolvimento de políticas públicas de enfrentamento à violência em áreas de maior população branca do que negra, bem como o acesso, por parte da "Elite Branca", à segurança privada.

Também chama atenção a lista dos 513 deputados federais eleitos no último dia 5 de outubro. Com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral, são autodeclarados brancos 79,9%, autodeclarados pardos 15,5%, os pretos representam 4,2% e apenas 0,4% são de origem indígena. No senado, 81,5% dos eleitos são brancos. Ao contrário do que entende David Coimbra, sua trôpega "Elite Branca" me parece ter bastante representatividade para lutar pelos direitos (que sempre tiveram).

O Relatório de Sustentatibilidade de 2012 da RBS, empresa de comunicação para qual trabalha o jornalista, revela o ambiente em que David está acostumado a passar boa parte do seu tempo, afinal ele diz que trabalha o tempo inteiro. Num universo que tem por volta de 6,5 mil funcionários, a empresa aponta ser 96% deles brancos, e apenas 4% negros. Na página 34, em um dos quadros informativos, uma nota faz questão de ressaltar: "100% dos cargos de diretoria são ocupados por brancos”.

Por essa variedade de dados, e mais outros referentes aos demais movimentos sociais - que preferi não citar para não estender ainda mais o texto -, é que discordo do referido colunista de ZH, ainda mais quando encerra sua explanação de forma irônica: 
- No Brasil, a Elite Branca sofre.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Filme de Segunda 142

12 Anos de Escravidão


O diretor e roteirista Steve McQueen chega a seu terceiro longa-metragem. Um trabalho absolutamente arrebatador, coroado com três premiações na cerimônia do Oscar 2014: melhor filme, melhor atriz coadjuvante (Lupita Nyong’o) e melhor roteiro adaptado. Tudo incontestavelmente merecido. Com a produção de Brad Pitt (que também faz participação no filme), a história é baseada no livro de mesmo nome, escrito pelo próprio Solomon Northup, homem livre, negro, que em meados de 1840 é sequestrado e vendido como escravo para fazendeiros do sul dos Estados Unidos.

12 Anos de Escravidão persegue a trajetória de Northup, vivido por um corretíssimo Chiwetel Ejiofor, num papel forte, emocional, sem dúvida nenhuma marcante e de uma competência excepcional. McQueen, também negro, pesa na condução do filme, mas não exagera. A trama, de uma forma geral, já causa um desconforto no espectador por se tratar de uma das grandes chagas da humanidade. A forma como o povo negro era tratado há pouco menos de 200 anos ainda traz fortes consequências nos dias atuais. Contar, recontar, espetar essa ferida ainda se faz necessário para embasar e intensificar cada vez mais a luta contra o racismo.

Se há um aspecto que pode-se dizer negativo de 12 Anos de Escravidão, é justamente aquele que diz respeito ao tempo em que o protagonista é escravizado. A narrativa é no mínimo confusa ao tentar passar para o espectador a sensação de ter passado tanto tempo. Nesse sentido, o próprio título auxilia, e talvez por isso este aspecto negativo seja um detalhe descartável. Apesar de não levar nenhum prêmio técnico, só há elogios a ser feito para cenário, figurino e trilha sonora.

O elenco de 12 Anos de Escravidão é um desbunde, ajudando e muito a boa direção de McQueen. Todos papeis muito fortes, desde o alucinado "amo" vivido por Michael Fassbender, até a jovem Lupita Nyong'o, que faz a jovem e forte Patsey. Através de seus personagens, o diretor deixa muito claro quem é opressor e quem é oprimido. Apesar de tudo, o protagonista Solomon Northup não aparece como um herói cheio de virtudes, justo e incorruptível. Pelo contrário, o personagem se adapta ao meio para sobreviver, sem necessariamente perder a esperança de volta a ser livre.

12 Anos de Escravidão é um filme forte, que não permite nenhum alívio cômico. Ele é denso e comovente do início ao fim, capaz de levar grande parte da plateia às lágrimas. É uma obra que merece ser vista e que infelizmente ainda se faz necessária nos dias atuais.

Gênero: Drama
Duração: 134 min.
Origem: EUA
Direção: Steve McQueen
Roteiro: Stive McQueen, John Ridley
Distribuidora: Walt Disney Pictures
Censura: 18 anos
Ano: 2013
Classificação PoA Geral 
- Obra
X Baita Filme
- Bom Filme
- Bem Bacana
- Meia-boca
- Ruim
- Péssimo

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Lei cria Conselho dos Direitos do Povo Negro

"O prefeito sancionou a lei complementar que cria o Conselho Municipal dos Direitos do Povo Negro e a lei que institui diretrizes para a construção do Museu da História e da Cultura do Povo Negro. A assinatura foi realizada ontem, 6, em solenidade no Paço Municipal. Vinculado ao Gabinete de Políticas Públicas para o Povo Negro, o conselho tem como objetivos desenvolver estudos e propor medidas e ações voltadas para o povo negro, de forma a buscar o combate ao preconceito, a discriminação racial e ao racismo na estrutura da sociedade. O órgão será formado por representantes do governo e sociedade. 
O coordenador do Gabinete de Políticas Públicas para o Povo Negro destacou que o conselho representa o fortalecimento da participação popular, envolvendo servidores e ativistas a fim de descaracterizar o racismo social. “O conselho é um organismo de controle social das políticas públicas voltadas ao povo negro e a ampliação da democracia participativa”, afirrmou. O prefeito salientou que o órgão será um instrumento que permitirá aos afrodescendentes se manifestarem de forma clara e deliberativa sobre as políticas adequadas ao seu povo. “Somos reconhecidos mundialmente por esta participação popular que decide os investimentos, políticas e rumos da nossa cidade. Será por meio do Conselho que transformaremos o discurso de posicionamento em ações concretas, garantindo o direito às diferenças”, disse.
Museu - Será um espaço para auxiliar as escolas de Ensino Fundamental e Médio no ensino sobre a História e a cultura afrobrasileira, divulgar a contribuição dos afrodescendentes para o desenvolvimento do Município e tornar-se um centro de referência para estudos sobre a cultura negra em Porto Alegre. Em seu acervo, o museu terá fotografias, pinturas, livros, móveis e utensílios, além de outros objetos que possam reconstituir a contribuição cultural e histórica dos afrodescendentes."
Notícia desta terça, do Diário Oficial de Porto Alegre.

Dentre outras, também foi sancionada ontem a lei número 10.987, que define em seu artigo primeiro que "Fica reconhecido o funk como um movimento cultural e musical de caráter popular do Município de Porto Alegre". Pois não sou negro, não sou "funkeiro", mas acho de imensa importância o Estado tratar de desmarginalizar culturas populares. O único problema é que esse tipo de lei fica numa esfera simbólica, na prática acontece pouco - o que já é melhor que nada.  

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Qualquer semelhança...

Do jornal Sul 21:

Jovens criam movimento contra imigrantes franceses
Jorge Seadi

Cresce na França um movimento da extrema direita contra os imigrantes pobres, principalmente os mulçumanos e negros que vivem nas periferias das cidades.
Enquanto Marine Le Pen, filha do lendário líder de extrema direita francesa, está adotando um discurso menos racista e xenófobo contra os imigrantes asiáticos e negros, surge um grupo jovem e radical que vai às ruas de Paris pedindo a expulsão destas pessoas.
Em suas primeiras manifestações públicas, eles se apresentam como “líderes carismáticos”, comunicando-se e organizando-se através das redes sociais. Enquanto a extrema direita representada pela família Le Pen modera sua linguagem, este movimento usa uma linguagem forte e xenófoba contra imigrantes, negros e mulçumanos, classificados como “gentinha”.
Ao mesmo tempo, o movimento é nacionalista, posicionando-se contra a globalização. São contra o capitalismo, contra o cosmopolita e a favor das “coisas locais”.
Na primeira manifestação pública, em Paris, gritavam “Revolução Nacional” , “O Poder aos jovens” e a “França para os franceses”.

Com informações do ABC.es

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Pergunte a um gaúcho o que ele acha de nordestinos. Pergunte sobre homossexuais, se conhece, se tem amizade com algum, se tem parentes que são, pergunte sobre união legal entre pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças por casais gays. Pergunte o que ele acha de separar o RS do Brasil.
Tenho certeza que um número expressivo de pessoas responderão de forma xenófoba, preconceituosa e ostentando um sentimento separatista burro, sem nenhum fundamento ou argumento. Não sei em números o quanto essas pessoas representam da sociedade riograndense, mas ainda que sejam 20 ou 30%, é bastante.
Muito disso vem da supervalorização da cultura gaúcha que se mistura com um certo complexo de inferioridade, de uma cultura que se fecha, não busca se expandir, não aceita novidades porém, ao mesmo tempo, reclama de não ser aceita e também discriminada no eixo RJ-SP quando, na verdade, é ela mesma quem discrimina.