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terça-feira, 14 de outubro de 2014

Você Viu? #109

Mídia: O que diz a mídia internacional sobre os candidatos
Observatório da Imprensa, 14 de outubro

Petrobras: Dornelles, o homem-bomba da CPI da Petrobras que constrange Aécio
Rede Brasil Atual, 14 de outubro

Passado: Meritocracia à Aécio
Diário do Centro do Mundo, 13 de outubro

Eleições: No Piauí, razões para voto em Dilma vão muito além do Bolsa Família
BBC Brasil, 13 de outubro

América Latina: Vitória de Evo significa apoio de população a programa econômico da Bolívia, diz analista
Opera Mundi, 13 de outubro

Propaganda: TRUCO! Programa #23 – 13 de outubro
Agência Pública, 13 de outubro

Sul 21, 13 de outubro
Ramiro Furquim / Sul 21

Dia das crianças: Se for eleito, vou botar esses vagabundos de 12 anos para trabalhar
Blog do Sakamoto, 12 de outubro

Corrida Eleitoral: O avanço do voto conservador e a difícil capacidade de reação do movimento popular brasileiro
Estratégia & Análise, 9 de outubro

Debate: Armínio Fraga e Guido Mantega - Economia Globo News, com Míriam Leitão

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Questão de identidade

Só o amor salvará o último drive-in
Daniela Pinheiro
Primeiro, compra-se a entrada: 14 reais por uma inteira e outros 7 para a acompanhante. Depois, ouvem-se as instruções da bilheteira: "Se quiser lanche, deixe o farolete ligado no baixo. Se estiver em perigo, ligue o pisca-pisca. Se for embora no meio, não acenda o farol." Os espectadores assentem e recebem uma folha xerocada, na qual se apresenta, de um lado, o cardápio de bebidas (garrafa de vinho tinto, 18 reais), petiscos (hot dog completo, c/ milho, queijo e batata palha, 4 reais) e ofertas de ocasião (promoção pipoca: 1 lata de refrigerante?+ 1 pipoca, 5 reais). Virando o lado, a confirmação de que se está no lugar certo: "O maior cinema ao ar livre do país!"

Dali a cinco minutos, começaria mais uma sessão do drive-in de Brasília, último remanescente brasileiro de um modo de ir ao cinema que já fez a alegria de gerações?- as de então e as que viriam a nascer, pois muita gente não existiria não fosse uma sessãozinha romântica no desconforto do banco de trás. Com capacidade para 500 carros e localizado dentro da área do autódromo, no coração da capital federal, o drive-in de Brasília resiste ao tempo (mau ou bom), às salas de shopping e às privações impostas pelo bom-tom politicamente correto.

O drive-in é o éden dos gordinhos, que podem se espalhar sem culpa pelas poltronas do carro. É a solução para fumantes, que simplesmente abrem as janelas para baforar ao relento. É o sossego das velhinhas, especialistas em comentar cada cena do filme oitavas acima do que convém nas salas tradicionais. É a redenção dos despojados, que podem aparecer de pantufas e pijamas. É a Arcádia dos modernos aflitinhos, que podem se pendurar à vontade nos seus inúmeros celulares. E é, sobretudo, o ninho das urgências de todos os apaixonados?- oficiais ou não. (Ainda não inventaram nada mais propício a uma discreta pulada de cerca, nem a preços tão honestos.)

Numa quinta-feira de junho, assistia-se a Chico Xavier no telão de concreto de 312 metros quadrados. Imagem nos trinques, graças a um equipamento que não faria feio em nenhum lugar do mundo. Quanto ao som, o progresso decerto fez cair o queixo de quem esperava aqueles alto-falantes abafados que, no passado, eram presos ao vidro do automóvel. Nada disso, senhores, vejam só: o antigo sistema foi substituído pela sintonia fina. Os interessados no que Chico Xavier tinha a dizer sobre este e o outro mundo precisavam apenas ajustar o dial na frequência modulada 88,7.

A projeção começou exatamente às 20 horas, com uma plateia composta por quatro veículos estacionados no mínimo a 100 metros um do outro (não por determinação da bilheteira). Num carro vermelho, um casal mantinha as janelas abertas. Fumavam, ouviam música de discoteca em alto e bom som e aproveitavam para se conhecer melhor: "Mas você nunca foi para Pirenópolis? Não acredito!", espantava-se, compreensivelmente, a mulher. Mais longe, via-se um táxi branco. Ao volante, um senhor na casa dos 60 anos; do lado, um rapaz na faixa dos 30.

Em outro canto, um utilitário prateado ligou o farolete. O casal cinquentão estava com fome. Passados uns minutos, surgiu no escuro a garçonete, que também acumula as funções de bilheteira, projecionista e cozinheira. O quarto carro estacionara tão no além, que dava vontade de apostar dez promoções de pipoca + refrigerante: seus ocupantes não estavam enxergando uma letra dos créditos de abertura. Tinham mais o que fazer.

Desde 1997, a piauiense Marisa Ferreira é a faz-tudo do cinema. Ela diz que adora: "É um trabalho muito bom. Estou sempre vendo os filmes da moda, não tem problema de segurança e os clientes me tratam muito bem." Com os braços transbordando de latas de refrigerante, Marisa concordou que o movimento estava fraco. "Mas semana que vem, Dia dos Namorados, isso aqui lota!"

O primeiro cinema drive-in de que se tem notícia foi inaugurado em Nova Jersey, nos Estados Unidos, em 1933. Sete anos depois, havia 1 500 em todo país. No Brasil, na década de 70, a maioria das capitais tinha o seu. O de Brasília foi fundado em 1973. Um grupo de engenheiros cariocas obteve licença do governo do Distrito Federal para explorar a imensa área.

Foi quando o pai da atual proprietária, a nutricionista Marta Fagundes, de 50 anos, entrou no negócio: "Ele gerenciava tudo e eu o ajudava. Minha ligação com o drive-in começou aí." Até o início dos anos 80, o empreendimento era um sucesso. Famílias se reuniam nos domingos à noite, com crianças enroladas no cobertor para assistir aos lançamentos infantis. Durante a semana, jovens casais trocavam carinhos à luz tremulante das fitas mais modernas da época.

"Naquele momento, havia doze salas de cinema em Brasília. Hoje são setenta. É difícil sobreviver", diz Marta. Em 1988, os prejuízos haviam se acumulado tanto que foi preciso fechar as portas. No ano seguinte, Marta juntou suas economias e entrou numa licitação para assumir o negócio. Venceu.

Em 1995, o ex-piloto de Fórmula 1 Nelson Piquet arrendou o autódromo, em cujo terreno o drive-in está instalado, e Marta passou a se reportar a ele. A parceria durou dez anos, mas o descaso com o espaço de projeção era evidente. Piquet acabaria se afastando, e Marta ficou ainda mais desamparada. Hoje o drive-in se encontra numa zona pantanosa do código comercial. O governo do Distrito Federal não renovou o contrato dela, mas também não lançou outro edital.

"Essa política de Brasília está um caos", lamenta Marta. "Esqueceram de mim. O cinema se paga, mas eu só sobrevivo porque tenho outra fonte de renda." As sessões infantis, aos sábados e domingos, ainda estão cheias de crianças, mas durante a semana o movimento não passa de dez carros. "Há essa impressão errada de que aqui é um lugar 'para namorar'. Ligam direto para perguntar se tem cama, se o filme que vai passar é picante... Não sei o que eles pensam..." Por amor ao ofício, talvez, Marta passa ao largo do fato sabido e consabido de que boa parte da humanidade não pensa necessariamente em cinema quando o assunto é drive-in.

Naquela quinta-feira, mais onze carros entraram durante o filme. Dois permaneceram menos de meia hora. Três estacionaram de costas para a tela. Marisa, a bilheteira-projecionista-cozinheira-e-garçonete, serviu batatas fritas, nuggets e Coca-Cola para o casal do carro prateado. Ninguém mais a chamou. Felizmente, confirmaram-se suas previsões para o 12 de junho. Com mais de 60 veículos pagantes, o Dia dos Namorados bateu o recorde de ocupação dos últimos meses. Foi uma sessão de gala, provando que o drive-in continua a honrar sua mais cara tradição.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

tipos brasileiros



"Craque não precisa jogar

Embora sem ter atuado ultimamente, Uevinho Catarinense continua a ser o mais caro jogador do planeta. E pleiteia uma vaga na Seleção

Marcos Caetano


Meu nome é Uéverson Rosicley dos Santos, tenho 26 anos e sou conhecido como Uevinho Catarinense, o melhor jogador do mundo das últimas três temporadas. O apelido surgiu quando eu jogava no Hercílio Luz junto com outro garoto, um paranaense chamado Uéversandro. Aí decidiram chamar a gente de Uevinho Catarinense e Uevinho Paranaense. Não sei bem por onde anda o xará Paranaense, mas acho que está na Ucrânia, na Coreia ou em algum outro desses países pequeneninos da Europa.

Como precisei largar o colégio para correr atrás do meu sonho, não sou muito bom de escrita. De forma que quem está botando em palavras os meus pensamentos é o meu assessor de imprensa, Ricardo Preá, o cara mais inteligente que conheci nos tempos de internato. Tão inteligente que, de todos os moleques da Cruzada de São Judas, foi o único que fez faculdade de jornalismo, na Unitosca, Universidade Técnica Operacional de Santa Catarina. Ele me falou que, como sou muito importante, um revisor dará mais uns tapas no texto. Por isso, essas mau traçada estão à altura do meu futebol. "Deus é fiel." [...]"

Trecho extraído da Revista Piauí de Abril. Continue lendo AQUI.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Propina: modo de usar

A cueca boxer é a aposta do verão
Roberto Kaz

Em dezembro, o Brasil assistiu a mais um espetáculo de cupidez, corrupção e engenho. Como não podia deixar de ser, o palco escolhido foi o bom e velho Distrito Federal, o Canecão dos escândalos nacionais. A essa altura, é provável que o leitor desgostoso não suporte ler nem mais um parágrafo sobre os desmandos do governador José Roberto Arruda e seu séquito de empresários e deputados distritais. Estará com toda a razão. Não é disso que se trata aqui.





Digno de nota - aliás, literalmente - é outra coisa. Tome-se o presidente da Câmara Legislativa, Leonardo Prudente, do DEM. Cenas exibidas em todas as televisões do país mostram-no enfiando, com sofreguidão, maços espessos de cédulas para dentro da roupa. Fiel ao sobrenome, Prudente admitiu que, sim, era propina, e teve a gentileza de explicar: "Eu recebi o dinheiro e coloquei o mesmo nas minhas vestimentas, em função da minha segurança. Eu não uso pasta."



É claro feito a luz: de uns tempos para cá, a indumentária vem se transformando numa das ferramentas mais importantes do corrupto bem-sucedido. A estabilidade fiscal trazida pelo Plano Real tornou a pasta definitivamente démodé. Na época do Cruzeiro, Cruzeiro Novo ou Cruzado, propina boa era propina volumosa, que exigia mala preta. Com o fim da inflação, 10 mil reais - a unidade mínima do corrupto contemporâneo - passaram a caber num único bolso. Mas bolsos ficam relativamente expostos aos ladrões, e daí segue-se uma das grandes novidades do prêt-à-porter contemporâneo: roupas íntimas como depósito de valor. A moda não é partidária. Começou com José Adalberto Vieira da Silva - assessor parlamentar do PT -, flagrado em 2005 com 100 mil dólares na cueca. Chega agora às partes íntimas dos Democratas, não sem antes fazer escala nos glúteos e coxas do empresário Alcyr Collaço, dono do jornal Tribuna do Brasil, que conseguiu a façanha de amarfanhar 60 mil reais para dentro das calças - três maços pela frente, três maços por trás.

Com quantos, maços, então, se faz uma cueca? Impunha-se a investigação. Para fazer as vezes de maços com 100 notas de 100 reais, escolheu-se papel com gramatura igual à da cédula oficial, e, com tesoura em punho, procedeu-se ao corte. Com austeridade duvidosa, considerou-se 100 mil reais como o piso máximo do corrompido nacional, o qual, para efeito de identificação, será tratado daqui para frente por outorgado.

Foram testados três tipos de cueca: slip, boxer e samba-canção, cada qual com suas virtudes e defeitos. A cueca string ou a tanga eternizada por Fernando Gabeira não foram adotadas, por não serem da preferência do brasileiro médio. Surpreendentemente, verificou-se que a diferença entre tamanhos P, M e G - todos devidamente testados - pouco contribui para as conveniências do armazenamento. Deve ser levada em conta, entretanto, quando o assunto é segurança.

Segundo levantamento realizado em 2008 pelo Ibope, a cueca mais vendida no Brasil é da marca Zorba - era, portanto, lógico dar-lhe preferência. Para que não houvesse problema com o elástico, que lasseia com o tempo, optou-se em utilizar modelos saídos da embalagem, comprados por cerca de 50 reais no site cuecasonline.com.br. Para as meias, empregou-se dois modelos - de algodão, escuras e finas, para combinar com o paletó; e de futebol, subindo até os joelhos, para ampliar a área de guarda.

A cueca samba-canção teve de ser logo descartada, por ineficaz. Como se sabe, o modelo dispõe de um único elástico. Para ficar no lugar, o dinheiro é laçado pelo centro, e assim permanece, sem nenhuma estabilidade, bamboleando para lá e para cá, a metade superior das notas acima da linha de cintura. O outorgado fica exposto a dois riscos graves: o de ser assaltado, e o de se ver com cédulas que lhe brotam calça afora, o que, além de inconveniente, não é elegante. Glória Kalil não aprovaria.

As cuecas slip, em formato de sunga, são substancialmente mais eficientes. Podem guardar até dois maços na vertical, na região das nádegas, e outros dois na horizontal, sobre as coxas. O dinheiro fica muito bem acondicionado entre os elásticos da cintura e das pernas. Paga-se 10 reais pela peça; leva-se 40 mil.

A melhor opção, no entanto, é a boxer, que nada mais é do que uma samba-canção apertada. Além de carregar os mesmos dois maços nas nádegas, ainda é possível - como fez o diligente empresário Alcyr Collaço - entocar outros quatro na parte da frente, dois em cada perna, todos na vertical. Embora cause desconforto, recomenda-se o uso de tamanho P, para que as notas fiquem bem juntas ao corpo, evitando que deslizem pelas pernas durante o trajeto do gabinete ao carro. Por 15 reais gastos na boxer, leva-se 60 mil reais. É a melhor relação custo-benefício.


Para a parte de baixo, recomenda-se vivamente o uso de meiões. Vale o mesmo critério adotado para as cuecas: o mais importante é que o dinheiro fique inteiramente abrigado dentro da peça de roupa. Se a meia atinge apenas a altura das canelas, corre-se o risco de o maço cair durante a caminhada. O meião consegue armazenar dois bolos de dinheiro por perna, o primeiro na parte interna, o outro na panturrilha. Há que se ter cuidado para não machucar os tornozelos. Paga-se 12 reais no par; leva-se 40 mil.



O cidadão que for a Brasília vestindo o conjunto boxer-meião poderá voltar 100 mil reais mais rico. Desde que não seja filmado.


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Matéria publicada na revista Piauí 40, deste mês.