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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Faltou sensibilidade política ao Governo Dilma e a Palocci

Texto de Alves Rodrigues, escrito um dia antes de Antônio Palocci renunciar ao cargo de ministro-chefe da Casa Civil.
O Brasil sempre teve, ou pelo menos faz bastante tempo que passou a ter, o seu bandido da moda. O criminoso da hora. Fernando Collor e PC Farias já foram bandidos da moda. Já tivemos assassinos como o Maníaco do Parque, políticos como Zé Dirceu e Antônio Palocci, o casal que jogou a filha pela janela, jogadores como Bruno, o ex-goleiro do Flamengo, o maluco que invadiu uma escola no Rio de Janeiro e atirou contra várias crianças e tantos outros casos que não me lembro. Sempre tivemos algum bandido da moda.
O bandido da moda é um excelente prato para os telejornais noturnos e costumam ocupar longos espaços por vários dias seguidos em programas como o do Datena, por exemplo, ou o Jornal Nacional. Quando o bandido da moda é um político, especialmente se é um político supostamente alinhado às ideologias de esquerda, jornalões nitidamente elitistas como O Globo, Zero Hora ou A Folha de São Paulo aproveitam para fazerem a festa (e a fortuna), capricham nas manchetes e enchem de mórbido prazer seus assinantes reconhecidamente contrários a qualquer governo que tenha alguma proposta de políticas públicas – caso do PT, 'supostamente' um partido de esquerda. Jornalistas como Boris Casoy lambem os beiços e babam pelos cantos da boca quando têm a chance de malhar alguém (supostamente) de esquerda. Semanários de qualidade discutível como a Veja e a Época dedicam várias capas e mancheteiam inúmeras denúncias de supostos escândalos relacionados ao esquerdista que ocupa o posto de bandido da moda. Nem precisa ser verdade o que publicam, o que importa é denunciar.
Bandidos da moda, como o próprio nome já deixa perceber, nunca ficam muito tempo 'em cartaz', e, em geral, eles raramente voltam a ocupar as capas dos semanários ou os espaços dos telejornais. Antônio Palocci, no entanto, conseguiu ser um desses raros casos. Depois de ter se tornado o bandido da moda, e ter sido por isso afastado do governo Lula, mais uma vez ele volta à cena, ou melhor, à moda.
Um dos graves defeitos da democracia é que ela é inteiramente dependente da honestidade e/ou da noção de ética das autoridades que controlam as sociedades democráticas. É completamente impossível prever e coibir todas as formas possíveis de subversão do uso do conhecimento adquirido através da participação em uma equipe de governo. Durante e depois do período de participação em uma equipe econômica, por exemplo, um homem passa a valer muito dinheiro, por seu conhecimento, pelos 'segredos' que pode revelar ou acontecimentos que supostamente pode 'prever'. Se esse homem (ou mulher) vai vender esse conhecimento, se vai aproveitar essa sua suposta capacidade de 'prever' certos comportamentos da economia e transformá-la em riqueza pessoal, só ele mesmo pode decidir. O Estado não pode impedir um cidadão de ensinar aquilo que aprendeu honestamente, não em uma democracia, pois isso seria um claro ataque às liberdades individuais, tão sagradas nas sociedades democráticas.
Antônio Palocci, na forma legítima e plenamente legal de 'assessoria', vendeu a empresários interessados, seus conhecimentos adquiridos ao longo do tempo em que fez parte da equipe econômica do governo Lula. Foi isso, ou foi mais ou menos isso, ou então foi algo bem pior. Não sabemos.
Em sociedades democráticas, parecer honesto é infinitamente mais importante do que efetivamente ser honesto. Para ser mais verdadeiro, nem é preciso ser honesto, desde que se pareça sê-lo. Palocci, me parece, deveria ser mais cuidadoso, um pouco mais preocupado com os aspectos éticos de suas assessorias e, fundamentalmente, Palocci bem que poderia parecer um pouco mais honesto.
Não faço a menor ideia de quanto tempo ainda levará até que Palocci seja afastado do cargo de ministro. não sei nem se isso irá mesmo acontecer, mas tenho a absoluta certeza de que não é nada bom para o governo Dilma, como de resto não seria bom a governo nenhum, ter como ministro-chefe da Casa Civil exatamente alguém que foi eleito (talvez até com correção) o bandido da moda.

*O trecho em negrito foi destacado pelo editor do blog.

terça-feira, 17 de maio de 2011

As guerras podem ser justas, depende da propaganda

Por Alves Rodrigues
Informar pode ser um dever, um serviço, um prazer, um favor ou, e é esse o ponto, uma poderosíssima arma de controle e manobra do pensamento coletivo. Informar a verdade deveria ser o objetivo principal de qualquer meio de comunicação grande ou pequeno. No entanto, isso não parece muito interessante do ponto de vista da manutenção do Império, construir a verdade, isso sim é muito mais interessante aos propósitos imperiais, além de bastante mais lucrativo às empresas de mídia a ele aliadas.

Já não parece difícil, depois de tantas décadas satanizando e destruindo a imagem de todo e qualquer personagem que fosse ou parecesse ser capaz de oferecer oposição aos interesses de dominação americana sobre os países menos 'desenvolvidos', convencer aos pacatos consumidores de telejornais, - tão dispostos a engolirem a matéria pronta e tão pouco dispostos a discutir seu verdadeiro significado ou o que possivelmente oculta-se atrás de cada 'notícia' - que o Império é o grande protetor do mundo ocidental, o verdadeiro guardião da democracia e que é o único capaz de salvar o mundo das demoníacas mãos de tiranos ditadores muçulmanos, que no passado já foram os comunistas.
Não é muito difícil, por exemplo, acostumar aos brasileiros de hoje a fazerem a associação automática de palavras como árabe e terrorista, islamismo e fanatismo, Chaves e ditadura, não, não é difícil. Não é difícil, ainda mais quando o modelo de jornalismo adotado no Brasil é aquele em que, após a apresentação da matéria, algum comentarista ou mesmo o próprio apresentador, ainda conclui 'explicando' o que significa a matéria apresentada e o que dela deve concluir o pobre cidadão que foi 'informado'.
Informar é uma arte? Uma ciência? Não, diria que é um perigo. Ainda mais quando aquilo que nos tem chegado, desde há muito tempo, já nada mais é do que pura e simples propaganda maquiada, a propaganda imperial fantasiada de notícia, transformada em verdade. Uma verdade criada nas redações. Uma verdade que já não pode ser constatada no mundo real.

Alves Rodrigues mantém o blog Somos Todos Torcedores e o twitter @lvesrodrigues

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Os Bolsonaros

Por Alves Rodrigues
Ainda repercutem as declarações do deputado Jair Bolsonaro (PP/RJ) no programinha de humor (duvidoso) da Band, CQC. Bolsonaro é uma figura triste. Um homem racista, elitista, homofóbico, reacionário. Um homem centenas de anos atrás de seu próprio tempo. Um ser patético, que depois de ter dito o que disse, ainda declara se achar no direito de ter dito tais absurdos.
Para Bolsonaro, um saudoso dos tempos de Geisel e Médici, o amor inter-racial é promiscuidade, fruto de má educação ou influência de um meio carente de "bons princípios".
Uma pena que o povo brasileiro ainda seja capaz de eleger pessoas assim. Mas muito mais lamentável ainda é que haja tantos indivíduos dispostos a "entendê-lo" e atuando na mídia oficial brasileira – tão contaminada pela ideologia reacionária da direita elitista. A começar pelo próprio líder do humorístico(?) da Band, Marcelo Tass,o Pequenino Príncipe, que parece não ter nada na cabeça, nem por dentro, nem por fora.
É triste e enojante já ter ouvido tantas argumentações esdrúxulas em favor do desprezível deputado carioca. Coisas como:
- Vivemos numa democracia. Todos têm o direito à livre expressão.
- Foi com esse pensamento que ele foi eleito, temos que respeitar.
- Bolsonaro é um homem sincero e honesto (honesto?). Muitos pensam como ele, apenas não têm coragem de declarar.
Lamentável. Manifestações de racismo são prática criminosa. Desde quando externar pensamentos criminosos é exercício do livre direito de expressão?
No fundo, não dá para estranhar o comportamento destes senhores da mídia, afinal, todos eles foram tão ágeis em comprar – e ajudar a vender – a ideia de que o regime de cotas nas Universidade Federais era o reconhecimento oficial do racismo no Brasil. Tudo bem, até concordo com isso. Era mesmo o reconhecimento oficial do racismo. Reconhecimento, aliás, bastante tardio e necessário. A ressaltar, porém, que das tantas práticas racistas existentes neste país predominantemente mestiço, a única em que os negros e mestiços eram beneficiados era exatamente o regime de cotas. Pois foi esta, exatamente esta, a que incomodou tanto aos nossos senhores – brancos e "democratas" – da mídia oficial do Brasil.
O Brasil está repleto de outros Bolsonaros, seres (des)humanos impregnados do sentimento de Pátria ensinado pelos ditadores de outras décadas, a Pátria amada, Brasil. O Brasil "limpo", livre dos comunistas subversivos, onde os negros sabem o seu lugar e os homossexuais simplesmente não existem. E, tristemente, a mãe gentil está repleta, também, de jornalistas isentos e livres de qualquer ideologia – pois ideologia, para eles, é coisa que só a esquerda tem –, todos eles dispostos a "compreender" tão absurdas declarações, todos eles dispostos a usar os mais estapafúrdios argumentos para tentar justificar as injustificáveis palavras do deputado criminoso.
Gente assim, com a ajuda de jornalistas assim, ainda pode acabar se elegendo no futuro. Cabe a nós cuidar para que isso não aconteça.

*Alves Rodrigues mantém o blog Somos Todos Torcedores e o twitter @lvesrodrigues

*As opiniões sobre o programa CQC, da Bandeirantes, e seu apresentador, Marcelo Tas, não são compartilhadas pelo editor deste blog.

*Quarta, 13, Jair Bolsonaro entregou sua defesa nas representações que pedem sua investigação por quebra de decoro parlamentar na Corregedoria da Câmara. O pepista é acusado de racismo e homofobia por conta de suas declarações. Bolsonaro disse, porém, que está sendo perseguido pelo “fascismo das minorias”. (Informações do Sul 21)

terça-feira, 15 de março de 2011

Todos os olhares estão sobre o Japão, por enquanto

Por Alves Rodrigues
Como sempre acontece, e é natural que assim seja, os olhos do mundo se voltam para o palco das grandes tragédias. Sempre fazemos isso. Parece que somos movidos por uma curiosidade mórbida, sempre que houver um lugar onde possam ser encontrados muitos cadáveres recentes, lá estarão nossos olhos. A morte nos intimida e fascina. E, com toda certeza, um dia encontrará cada um de nós. Por enquanto, no curso de nossas vidas, observamos, mesmo que de longe, pela tv ou internet, os locais das catástrofes. A visão de gente morta não nos fará sentir desejo de morrer, não nos trará maior compreensão sobre o que, realmente, significa estar morto, nem nos aliviará das dores que as perdas humanas nos causarão no futuro. Ainda assim seguimos à procura de vítimas para observar.
Há alguns anos chocamo-nos com os atentados que causaram milhares de vítimas nos atentados aéreos do 11 de setembro, lamentamos a invasão do Iraque, o Tsunami das Filipinas, os periódicos massacres que Israel promove na Palestina, os devastadores terremotos ocorridos no Haiti e no Chile, as chuvas inusitadamente torrenciais que têm provocado milhares de mortes no Brasil do século XXi. Agora, nos últimos dias, os olhares lacrimosos e incrédulos do mundo inteiro estão focados sobre o pequeno Japão. A absoluta impotência do homem diante das descomunais forças da natureza ficou inegavelmente comprovada após assistirmos as imagens vindas daquele país.
Mais uma vez, em curto período de tempo, o eixo de rotação do planeta sofre alteração provocada por terremoto de grande magnitude. As consequências destas sucessivas alterações, creio eu, não podem ser avaliadas com absoluta certeza se considerarmos a complexidade total das forças que promovem o equilíbrio de um sistema solar. Por menos que eu entenda do assunto, não acho que seja muito simples concluir que essas alterações, por mínimas que sejam – desta vez foram 25 cm, dizem –, não são capazes produzir consequências.
Terremotos são fenômenos naturais, todos sabemos, e embora especialistas, no passado, tenham alertado sobre a possibilidade da construção da Represa das Três Gargantas, na China, contribuir para a ocorrência de terremotos de maior magnitude e de forma mais frequente, devemos aceitar que ninguém pode ser responsabilizado pela ocorrência de um tremor de terra tão gigantesco quanto o ocorrido no nordeste do Japão. No entanto, as consequências geradas por este evento, pouco têm de naturais. Se o mundo do homem ainda fosse um lugar criado pela natureza, cessado o terremoto e passado o consequente tsunami, aos poucos as coisas voltariam ao seu normal. Porém, o modo artificial criado pelos seres humanos para sustentar o tipo de civilização que criamos, consumista e predatória do meio, não permite que assim seja.
Durante muitos milênios a luz do sol forneceu toda a energia necessária para a sustentação da vida na Terra. Modernamente, nossos meios artificiais de sobrevivência passaram a exigir formas artificiais de sustentação da vida. Outras fontes de energia precisaram ser descobertas ou criadas. Grande parte dessa artificialidade toda é sustentada pela energia elétrica, cada vez mais necessária para que nossa "civilização" não se dissolva. Sem ela, voltaríamos, literalmente, à Idade das Trevas. Para chegar à tão indispensável energia elétrica, todos os meios são válidos, todas as possibilidades são experimentadas e a seguir exploradas. Se tiverem potencial para a geração de lucro rápido, com toda certeza são aprovadas, independente dos custos ou riscos ambientais que seu uso possa acarretar. Vale tudo. Vale queimar carvão, mesmo que isso contamine a atmosfera muito além daquilo que o planeta possa suportar. Vale queimar petróleo, lenha, qualquer coisa que gere calor e que possa mover uma turbina que transformará essa energia calorífica em elétrica, mesmo que o planeta não possa suportar essa prática indefinidamente. Vale tudo. Vale inundar as florestas, dizimar inúmeras espécies animais e vegetais, afugentar populações indígenas e desalojar comunidades humildes, como fazem no Brasil. Como estão fazendo em Belo Monte. Vale até apelar para a construção de grandes reatores atômicos e correr os riscos (gigantescos e permanentes) de algum acidente que, com toda certeza, um dia ainda há de ocorrer. Reatores atômicos pululam pelo Hemisfério Norte. Até o Brasil tem um monstro desses. Vale tudo. Qual o problema? Se houver um preço a pagar, só será pago no futuro. Pois bem, parece que o futuro chegou. Não há dúvida de que estamos começando a pagar por muitos e muito grandes erros cometidos ao longo dos últimos séculos.
Energia nuclear é uma péssima solução. Não fossem as usinas e seus reatores, o Japão estaria, neste momento, lamentando seus mortos e preparando o terreno para a reconstrução do que foi destruído. Certamente que tudo seria feito melhor, mais seguro e mais resistente do que aquilo que havia antes. No entanto não é assim que acontece. O terremoto passou, o tsunami se foi, contudo, a ameaça permanece. Cedo demais para afirmar qualquer coisa quanto ao futuro das localidades que tiveram suas usinas atingidas.
Ainda assim, uma tristeza muito maior que a tragédia e o grande número de inocentes mortos me atormenta: a certeza de que tudo foi em vão, nada vai mudar. Ainda que todos estejamos olhando, agora, para o país do sol nascente, logo mais não estaremos. Em alguns dias, se nada ainda pior acontecer por lá, já estaremos de volta às nossas vidas artificias, sustentadas por meios artificiais, e cometendo os mesmo erros. Estaremos, em poucos dias, exatamente igual ao modo como sempre estivemos, continuaremos sendo o que somos, os mesmos consumidores, poluidores e predadores do planeta. Continuaremos sendo, apesar de tantas e tão irrefutáveis provas de nossos erros grosseiros, os mesmos ridículos seres humanos, feitos à imagem e semelhança de um deus e à espera de uma nova catástrofe para onde voltar nossos olhos cegos pela irracionalidade da civilização do consumo. Uma nova tragédia, só mais uma notícia bombástica, só mais um grande produto para o mercado de consumo de imagens impressionantes. Uma nova tragédia, muitas vítimas, mais uma excelente oportunidade de ver e não aprender nada. Somos assim, não vamos mudar.

*Alves Rodrigues mantém o blog Somos Todos Torcedores e o twitter @lvesrodrigues

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Eu não sei o que esses ciclistas têm na cabeça

Por Alves Rodrigues
Tem um maluco solto na cidade. Quer dizer, um só não, tem um monte deles. Mas me refiro a um psicopata em especial. Um que foi visto na noite da última sexta-feira (25), armado de um Golf preto e tentando assassinar o maior número possível de ciclistas participantes do Massa Crítica (movimento gaúcho pela valorização da bicicleta como meio de transporte).
Eu não sei o que esses ciclistas têm na cabeça. Não sei de onde eles tiraram a ideia de que têm o direito de usarem as rua de Porto Alegre sem o prévio consentimento da EPTC. Ora, onde já se viu? Desaforados. Esses caras estão pensando o quê? Que vão mudar o mundo? Não respeitam o sagrado direito de ir e vir (de carro, é claro). As ruas de Porto Alegre e da região metropolitana são para os carros, não são para pedestres, ciclistas, carroceiros, catadores de lixo reciclável e seus carrinhos que dificultam a "mobilidade urbana". Lugar de ciclista é nos parques. (Na ciclovia transformada em estacionamento é que não pode ser.) Pelo menos é isso que parece pensar o sr. Vanderlei Capellari, diretor da EPTC, que alega que a empresa não foi informada sobre a intenção do grupo de pedalar pelas ruas da Capital. Isso não me parece fazer sentido, e por dois motivos: o primeiro é que o Massa Crítica se reúne toda última sexta-feira do mês já há bastante tempo, fico surpreso com o desconhecimento do senhor diretor; e o segundo é que se essas mesmas pessoas resolvesse se encontrar no mesmo lugar em que se encontraram na sexta-feira, no mesmo horário e percorrerem as mesmas ruas, de carro e não de bicicleta, não precisariam "pedir" nada para a EPTC. Bicicleta não é meio de transporte, não é veículo? Ciclista não é um personagem do trânsito como outro qualquer?
Atropelamento intencional, acreditem, não é tentativa de homicídio, é "lesão corporal". Ao menos é o que acredita o delegado Gilberto Almeida Montenegro, diretor da Divisão de Crimes de Trânsito de Porto Alegre. Eu juro que pensava que se eu tivesse um carro e o usasse para passar deliberadamente sobre um grande grupo de pessoas, ia acabar me incomodando. Estava enganado. Isso não me causaria problema se essas pessoas estivessem desrespeitando o indiscutível direito de ir e vir dos egoístas mauricinhos de classe média em seus carros financiados a longo prazo. "Aqui não é a Líbia", disse o delegado, "aqui todos têm liberdade de manifestação, desde que avisem as autoridades". Quer dizer que é assim? Se as autoridades permitirem eu posso ser livre? Oba, viva a liberdade.
Não deveríamos estar tão surpresos com as declarações destes representantes do Estado. Lembram do jardineiro de Brasília? Se não lembram vou contar. Vou contar aquela história de um ministro (por ironia, Ministro dos Transportes) que voltava, na companhia de seu filho, de um churrasco regado a bebida alcoólica lá na Capital Federal. Dizem que quem dirigia era o filho do ministro, dizem que não tinha bebido. Não sei. Sei apenas que um jardineiro, um trabalhador, foi atropelado e abandonado caído no asfalto. Ficou lá, não teve assistência dos atropeladores. Julgados, pai e filho foram inocentados da acusação de omissão de socorro. A Justiça (cega) concluiu que por estar a vítima já morta, não havia mal nenhum na atitude dos atropeladores de irem para casa e de lá ligarem para a polícia. Ninguém foi preso, mas, magnânima, a Justiça "condenou" o réu, o filho do ministro, ao pagamento de algumas cestas básicas. Eu sei que a Justiça tem de ser cega, mas não acho que devesse levar a coisa tão ao pé da letra.
O caso do atropelamento em massa aqui de Porto Alegre parece que seguirá pelo mesmo caminho. Mesmo antes da identificação do atropelador, Polícia Civil e EPTC já encontraram alguém para culpar: as vítimas.
Parecia bobagem a figura que eu fiz no post anterior, aquele sobre o metrô de Porto Alegre, mas podem acreditar que assim mesmo que pensam as autoridades quando falam de mobilidade urbana. Em suas mentes, a imagem de ruas repletas de carros circulando sem serem atrapalhados por pedestres ou outras formas de transporte é a imagem da cidade ideal, moderna, desenvolvida. Quem sabe, quando construírem o tal metrô, não construam também, paralelo aos trilhos, uma ciclovia? Ficaria perfeito. Lugar de ciclista, nas modernas metrópoles capitalistas do Brasil do terceiro milênio, é junto com os trabalhadores: debaixo da terra. O cara do Golf preto só quis ganhar tempo e mandar os ciclistas pra lá de uma vez, não teve paciência de esperar o metrô ficar pronto.

*Alves Rodrigues mantém o blog Somos Todos Torcedores e o twitter @lvesrodrigues

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Um metrô para Porto Alegre

Por Alves Rodrigues
No mundo ideal existe lugar para todos. O mundo, porém, apesar de ser único, é, na verdade, múltiplo. Existem, dentro do único mundo que existe, vários outros mundos. Existe o mundo dos ricos e existe um outro, o dos pobres. Existe o mundo do crime, por onde vagam desde o mais desprestigiado marginal até algumas personalidades influentes. No mundo das drogas também encontramos representantes de todas as classes sociais, doutores, professores, políticos, desempregados, atletas, enfim, tem de tudo neste mundo. O mundo das artes é habitado pelos gênios loucos, gente que tem muito a dizer, mas geralmente não é compreendida. Existe também o mundo da fantasia, é lá que vivem os alienados e os ignorantes, felizes, alheios aos males e às mazelas que os cercam. Recentemente tomamos ciência da existência do mundo virtual, um novo mundo que nos encanta por suas possibilidades, embora ainda não tenhamos tido tempo de avaliar todas as consequências que sua existência pode ocasionar. Enfim, existem diversos mundos dentro do único mundo que existe: o real. Na verdade, e para nosso imenso infortúnio, o único mundo que não existe é o mundo ideal.
O mundo dos pobres é repleto de sonhos. Compreensível, afinal, para quem pouco ou nada tem, tudo não passa de um sonho, ou melhor, tudo passa a ser sonho. Sonhos modestos tipo uma casa pra viver, comida pra comer, esse tipo de coisa que, normalmente, os pobres não costumam ter. Uma rua limpa pra morar. Uma rua onde as crianças pudessem brincar e crescer longe dos perigos. Os perigos da violência, do tráfico e do trânsito. Longe do perigo dos carros. Os carros matam. A grande maioria dos pobres – dos realmente pobres – não tem carro. Então, os pobres não matam no trânsito, no trânsito, os pobres – os realmente pobres – apenas morrem.
Um sonho muito corriqueiro do mundo dos pobres (que têm emprego) é ver diminuído o sacrifício necessário para conseguir chegar ao seu local de trabalho, geralmente distante dos bairros periféricos onde se exilam os trabalhadores. Transporte coletivo digno, um sonho. Ir e vir é direito de todo cidadão brasileiro, direito assegurado na Constituição Federal. Ir e vir, porém, de ônibus, em qualquer região metropolitana desta pátria verde e amarela, já não pode mais ser chamado direito, mas penitência.
O mundo dos ricos, a mim parece, não deixa espaço para muitos sonhos. O que faltaria a quem já tem tudo ou quase tudo? Mais uma mansão com quadra de tênis e piscina? Mais um carro na garagem? O homem rico, creio eu, não é um ser ruim por nascimento. Porém, uma boa parte dos ricos e poderosos empresários, políticos, enfim, as pessoas que, por alguma razão, compõem a elite econômica deste país, por certo tem horror a pobres. Juro que tenho a impressão de que os ricos – quase todos eles - só gostam dos pobres em duas situações: quando estão trabalhando e gerando mais riqueza ainda para aqueles que já têm muito mais do que precisam e merecem, ou quando estão mortos e enterrados, pois então já não necessitam mais que governos socialmente menos injustos - o de Lula, por exemplo, não este que Dilma está começando a propor – invistam dinheiro em políticas públicas, dinheiro de impostos, impostos que os empresários vivem reclamando que pagam, mas que na verdade não o fazem, pois tudo é descontado no Imposto de Renda de seus balanços, vez ou outra maquiados. No mundo ideal dos ricos os pobres não existiriam, ou melhor, existiriam sim, mas só durante o dia, período em que trabalhariam horas a fio por salários indignos e insuficientes, à noite, convenientemente, eles desapareceriam debaixo da terra para, como mágica, ressuscitarem no dia seguinte e seguirem trabalhando por seus salários miseráveis.
O PAC da Copa encheu de água a boca de políticos e empreiteiros aqui em Porto Alegre. Num papo-furado como nunca antes na história deste país falou-se em um tal metrô que ligaria o Centro à Zona Norte, não sem antes passar pelo (hoje em ruínas) estádio da beira do rio. Ir do Centro à Zona Norte passando primeiro pela Pe. Cacique não é apenas burrice, é pura sacanagem mesmo. O metrô não entrou no PAC da Copa, menos mal. Porém, agora surgiu a mais 'nova novidade' do momento: o metrô de Porto Alegre está incluso no PAC da Mobilidade. Por mobilidade entenda-se a facilitação da vida dos carros, não necessariamente a das pessoas.
É claro que a implantação de um metrô na Capital gaúcha tende a ser um avanço no sistema de transporte público. Tende. Tudo ainda vai depender bastante de questões como traçado, tarifa, acessibilidade para os moradores das periferias, horário de funcionamento e algumas outras coisas que eu que, como tudo na vida, sou apenas passageiro, não tenho condições de avaliar.
No entanto, um metrô em Porto Alegre seria mesmo algo bem interessante. O encontro de dois mundos. O sonho daqueles que vivem no mundo dos pobres, de ter a possibilidade de contar com um transportes público rápido, limpo, eficiente e barato, parece bem possível quando se imagina um trem elétrico rodando em boa velocidade pelos subterrâneos da Capital. Claro que, na prática, a gente tinha que procurar conhecer a opinião de trabalhadores brasileiros de outras metrópoles que já contam com esse tipo de transporte. Por outro lado, o sonho que se sonha lá no mundo dos ricos estaria bem próximo de sua realização. Que coisa linda – para os bem aquinhoados - aquele bando de pobres emergindo da terra pela manhã, cumprindo sua jornada de trabalho (nem sempre respeitada pelo empregador), fazendo jus ao seu parco soldo (nem sempre pago correta e assiduamente), produzindo a riqueza que engordará as contas dos patrões, os bolsos dos banqueiros e os cofres do Estado, para depois, ao cair da noite, outra vez desaparecer pelos buracos cavados pela iniciativa privada e financiados pelo poder público, e só retornar no dia seguinte para gerar mais riqueza. Menos ônibus nas ruas, menos pobres na superfície da cidade, mais espaço para os carros de quem pode ter carro. Que maravilha.

Vem aí o metrô de Porto Alegre.
Será que vem?

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sábado, 12 de fevereiro de 2011

Band, seus interesses e Luiza Erundina


Erundina censurada
Por Alves Rodrigues
A Rádio BandAM640, aqui de Porto Alegre, leva aoar, todos os domingos, um programa chamado "Hora Israelita". Perfeito. O que me incomoda é que, com toda a certeza, a emissora jamais aceitaria transmitir um programa que se chamasse, por exemplo, "A Hora do Islam". Posso apostar com quem queira que ela jamais incluiria um programa com esse título em sua grade. É democrático isto?
Não, claro que não. Mas quem está se importando? A direção nacional da empresa é que não está, certamente.
O único interesse do jornalismo brasileiro, há muito tempo, é divulgar as ideias e os ideais dos donos da mídia, os de seus amigos e os de seus patrocinadores. Qualquer um pode alugar um horário no rádio ou na tv e sair 'pregando' o que bem entender, desde que, é claro, não contrarie os interesses dos donos da emissora que alugou o espaço.
Jornalismo seletivo - só divulga o que lhe convém, preferência por facetas negativas dos partidos que não lhe são simpáticos, total descaso pelos deslizes cometidos por políticos 'amigos', assim é a mídia nacional brasileira. E agora chega a um caso extremo de violação ao direito de informação, um ataque deliberado à liberdade de expressão, e traz de volta ao cenário democrático em que se insere o país, o repugnante expediente da censura.
A deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP), que já foi prefeita da capital de São Paulo, enquanto ainda pertencia aos quadros do PT, foi impedida de argumentar em defesa de um projeto de lei de sua autoria que apenas propunha, segundo ela, "motivar mais democracia e transparência no processo de renovação das concessões públicas de rádio e tv". A justificativa da emissora, segundo consta, foi apresentada por telefone, e resumiu-se a isto: “Este veto é uma resposta aos ataques que a deputada vem fazendo à Rede Bandeirantes”.
A assessoria de imprensa da deputada divulgou nota que pode ser lida neste link.
Honestamente? Isso é uma vergonha.

*Alves Rodrigues mantém o blog Somos Todos Torcedores e o twitter @lvesrodrigues