terça-feira, 15 de março de 2011

Todos os olhares estão sobre o Japão, por enquanto

Por Alves Rodrigues
Como sempre acontece, e é natural que assim seja, os olhos do mundo se voltam para o palco das grandes tragédias. Sempre fazemos isso. Parece que somos movidos por uma curiosidade mórbida, sempre que houver um lugar onde possam ser encontrados muitos cadáveres recentes, lá estarão nossos olhos. A morte nos intimida e fascina. E, com toda certeza, um dia encontrará cada um de nós. Por enquanto, no curso de nossas vidas, observamos, mesmo que de longe, pela tv ou internet, os locais das catástrofes. A visão de gente morta não nos fará sentir desejo de morrer, não nos trará maior compreensão sobre o que, realmente, significa estar morto, nem nos aliviará das dores que as perdas humanas nos causarão no futuro. Ainda assim seguimos à procura de vítimas para observar.
Há alguns anos chocamo-nos com os atentados que causaram milhares de vítimas nos atentados aéreos do 11 de setembro, lamentamos a invasão do Iraque, o Tsunami das Filipinas, os periódicos massacres que Israel promove na Palestina, os devastadores terremotos ocorridos no Haiti e no Chile, as chuvas inusitadamente torrenciais que têm provocado milhares de mortes no Brasil do século XXi. Agora, nos últimos dias, os olhares lacrimosos e incrédulos do mundo inteiro estão focados sobre o pequeno Japão. A absoluta impotência do homem diante das descomunais forças da natureza ficou inegavelmente comprovada após assistirmos as imagens vindas daquele país.
Mais uma vez, em curto período de tempo, o eixo de rotação do planeta sofre alteração provocada por terremoto de grande magnitude. As consequências destas sucessivas alterações, creio eu, não podem ser avaliadas com absoluta certeza se considerarmos a complexidade total das forças que promovem o equilíbrio de um sistema solar. Por menos que eu entenda do assunto, não acho que seja muito simples concluir que essas alterações, por mínimas que sejam – desta vez foram 25 cm, dizem –, não são capazes produzir consequências.
Terremotos são fenômenos naturais, todos sabemos, e embora especialistas, no passado, tenham alertado sobre a possibilidade da construção da Represa das Três Gargantas, na China, contribuir para a ocorrência de terremotos de maior magnitude e de forma mais frequente, devemos aceitar que ninguém pode ser responsabilizado pela ocorrência de um tremor de terra tão gigantesco quanto o ocorrido no nordeste do Japão. No entanto, as consequências geradas por este evento, pouco têm de naturais. Se o mundo do homem ainda fosse um lugar criado pela natureza, cessado o terremoto e passado o consequente tsunami, aos poucos as coisas voltariam ao seu normal. Porém, o modo artificial criado pelos seres humanos para sustentar o tipo de civilização que criamos, consumista e predatória do meio, não permite que assim seja.
Durante muitos milênios a luz do sol forneceu toda a energia necessária para a sustentação da vida na Terra. Modernamente, nossos meios artificiais de sobrevivência passaram a exigir formas artificiais de sustentação da vida. Outras fontes de energia precisaram ser descobertas ou criadas. Grande parte dessa artificialidade toda é sustentada pela energia elétrica, cada vez mais necessária para que nossa "civilização" não se dissolva. Sem ela, voltaríamos, literalmente, à Idade das Trevas. Para chegar à tão indispensável energia elétrica, todos os meios são válidos, todas as possibilidades são experimentadas e a seguir exploradas. Se tiverem potencial para a geração de lucro rápido, com toda certeza são aprovadas, independente dos custos ou riscos ambientais que seu uso possa acarretar. Vale tudo. Vale queimar carvão, mesmo que isso contamine a atmosfera muito além daquilo que o planeta possa suportar. Vale queimar petróleo, lenha, qualquer coisa que gere calor e que possa mover uma turbina que transformará essa energia calorífica em elétrica, mesmo que o planeta não possa suportar essa prática indefinidamente. Vale tudo. Vale inundar as florestas, dizimar inúmeras espécies animais e vegetais, afugentar populações indígenas e desalojar comunidades humildes, como fazem no Brasil. Como estão fazendo em Belo Monte. Vale até apelar para a construção de grandes reatores atômicos e correr os riscos (gigantescos e permanentes) de algum acidente que, com toda certeza, um dia ainda há de ocorrer. Reatores atômicos pululam pelo Hemisfério Norte. Até o Brasil tem um monstro desses. Vale tudo. Qual o problema? Se houver um preço a pagar, só será pago no futuro. Pois bem, parece que o futuro chegou. Não há dúvida de que estamos começando a pagar por muitos e muito grandes erros cometidos ao longo dos últimos séculos.
Energia nuclear é uma péssima solução. Não fossem as usinas e seus reatores, o Japão estaria, neste momento, lamentando seus mortos e preparando o terreno para a reconstrução do que foi destruído. Certamente que tudo seria feito melhor, mais seguro e mais resistente do que aquilo que havia antes. No entanto não é assim que acontece. O terremoto passou, o tsunami se foi, contudo, a ameaça permanece. Cedo demais para afirmar qualquer coisa quanto ao futuro das localidades que tiveram suas usinas atingidas.
Ainda assim, uma tristeza muito maior que a tragédia e o grande número de inocentes mortos me atormenta: a certeza de que tudo foi em vão, nada vai mudar. Ainda que todos estejamos olhando, agora, para o país do sol nascente, logo mais não estaremos. Em alguns dias, se nada ainda pior acontecer por lá, já estaremos de volta às nossas vidas artificias, sustentadas por meios artificiais, e cometendo os mesmo erros. Estaremos, em poucos dias, exatamente igual ao modo como sempre estivemos, continuaremos sendo o que somos, os mesmos consumidores, poluidores e predadores do planeta. Continuaremos sendo, apesar de tantas e tão irrefutáveis provas de nossos erros grosseiros, os mesmos ridículos seres humanos, feitos à imagem e semelhança de um deus e à espera de uma nova catástrofe para onde voltar nossos olhos cegos pela irracionalidade da civilização do consumo. Uma nova tragédia, só mais uma notícia bombástica, só mais um grande produto para o mercado de consumo de imagens impressionantes. Uma nova tragédia, muitas vítimas, mais uma excelente oportunidade de ver e não aprender nada. Somos assim, não vamos mudar.

*Alves Rodrigues mantém o blog Somos Todos Torcedores e o twitter @lvesrodrigues

Um comentário:

  1. É impressionante como o homem criou uma outra natureza, diferente, para ele viver...

    Sobre a morbidez... há exemplos diários no trânsito, quando há acidente, os outros carros passam devagar para ver em detalhes o acidente.

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