quarta-feira, 8 de junho de 2011

Faltou sensibilidade política ao Governo Dilma e a Palocci

Texto de Alves Rodrigues, escrito um dia antes de Antônio Palocci renunciar ao cargo de ministro-chefe da Casa Civil.
O Brasil sempre teve, ou pelo menos faz bastante tempo que passou a ter, o seu bandido da moda. O criminoso da hora. Fernando Collor e PC Farias já foram bandidos da moda. Já tivemos assassinos como o Maníaco do Parque, políticos como Zé Dirceu e Antônio Palocci, o casal que jogou a filha pela janela, jogadores como Bruno, o ex-goleiro do Flamengo, o maluco que invadiu uma escola no Rio de Janeiro e atirou contra várias crianças e tantos outros casos que não me lembro. Sempre tivemos algum bandido da moda.
O bandido da moda é um excelente prato para os telejornais noturnos e costumam ocupar longos espaços por vários dias seguidos em programas como o do Datena, por exemplo, ou o Jornal Nacional. Quando o bandido da moda é um político, especialmente se é um político supostamente alinhado às ideologias de esquerda, jornalões nitidamente elitistas como O Globo, Zero Hora ou A Folha de São Paulo aproveitam para fazerem a festa (e a fortuna), capricham nas manchetes e enchem de mórbido prazer seus assinantes reconhecidamente contrários a qualquer governo que tenha alguma proposta de políticas públicas – caso do PT, 'supostamente' um partido de esquerda. Jornalistas como Boris Casoy lambem os beiços e babam pelos cantos da boca quando têm a chance de malhar alguém (supostamente) de esquerda. Semanários de qualidade discutível como a Veja e a Época dedicam várias capas e mancheteiam inúmeras denúncias de supostos escândalos relacionados ao esquerdista que ocupa o posto de bandido da moda. Nem precisa ser verdade o que publicam, o que importa é denunciar.
Bandidos da moda, como o próprio nome já deixa perceber, nunca ficam muito tempo 'em cartaz', e, em geral, eles raramente voltam a ocupar as capas dos semanários ou os espaços dos telejornais. Antônio Palocci, no entanto, conseguiu ser um desses raros casos. Depois de ter se tornado o bandido da moda, e ter sido por isso afastado do governo Lula, mais uma vez ele volta à cena, ou melhor, à moda.
Um dos graves defeitos da democracia é que ela é inteiramente dependente da honestidade e/ou da noção de ética das autoridades que controlam as sociedades democráticas. É completamente impossível prever e coibir todas as formas possíveis de subversão do uso do conhecimento adquirido através da participação em uma equipe de governo. Durante e depois do período de participação em uma equipe econômica, por exemplo, um homem passa a valer muito dinheiro, por seu conhecimento, pelos 'segredos' que pode revelar ou acontecimentos que supostamente pode 'prever'. Se esse homem (ou mulher) vai vender esse conhecimento, se vai aproveitar essa sua suposta capacidade de 'prever' certos comportamentos da economia e transformá-la em riqueza pessoal, só ele mesmo pode decidir. O Estado não pode impedir um cidadão de ensinar aquilo que aprendeu honestamente, não em uma democracia, pois isso seria um claro ataque às liberdades individuais, tão sagradas nas sociedades democráticas.
Antônio Palocci, na forma legítima e plenamente legal de 'assessoria', vendeu a empresários interessados, seus conhecimentos adquiridos ao longo do tempo em que fez parte da equipe econômica do governo Lula. Foi isso, ou foi mais ou menos isso, ou então foi algo bem pior. Não sabemos.
Em sociedades democráticas, parecer honesto é infinitamente mais importante do que efetivamente ser honesto. Para ser mais verdadeiro, nem é preciso ser honesto, desde que se pareça sê-lo. Palocci, me parece, deveria ser mais cuidadoso, um pouco mais preocupado com os aspectos éticos de suas assessorias e, fundamentalmente, Palocci bem que poderia parecer um pouco mais honesto.
Não faço a menor ideia de quanto tempo ainda levará até que Palocci seja afastado do cargo de ministro. não sei nem se isso irá mesmo acontecer, mas tenho a absoluta certeza de que não é nada bom para o governo Dilma, como de resto não seria bom a governo nenhum, ter como ministro-chefe da Casa Civil exatamente alguém que foi eleito (talvez até com correção) o bandido da moda.

*O trecho em negrito foi destacado pelo editor do blog.

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